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Domingo, 20 de Setembro 2026
Política

Lula, o BRB e o estranho jeito de pedir votos em Brasília

A recusa de Lula em colaborar com uma solução para o BRB revela duas coisas: sua pouca simpatia por Brasília e a falta de confiança numa vitória de Leandro Grass para o Governo do Distrito Federal

Claudio Campos
Por Claudio Campos
Lula, o BRB e o estranho jeito de pedir votos em Brasília
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Lula veio a Brasília pedir votos para Leandro Grass, atacar Celina Leão e anunciar que seu governo não pretende ajudar o BRB. É uma combinação política, no mínimo, curiosa. Na opinião deste articulista, a postura presidencial revela muito mais do que uma divergência administrativa: mostra que Lula não acredita verdadeiramente na vitória de seu próprio companheiro de partido para o Palácio do Buriti. Afinal, se acreditasse que Grass assumiria o governo dentro de poucos meses, faria sentido trabalhar agora para deixar o principal banco público do Distrito Federal de pé - e não dificultar sua recuperação.

O populismo equivocado de Lula

O populismo tem uma característica fascinante: sempre precisa encontrar um vilão.

Se o problema é complicado, melhor ainda. Basta escolher um culpado, subir no palanque, apontar o dedo e transformar uma questão que exige números, responsabilidade e solução em meia dúzia de frases de efeito.

Foi mais ou menos o espetáculo apresentado por Lula em Ceilândia.

Durante comício em 16 de setembro, o presidente declarou que seu governo não dará dinheiro ao BRB e chamou a governadora Celina Leão de “cínica e mentirosa”. Também atribuiu a crise da instituição à relação entre o ex-governador Ibaneis Rocha e Daniel Vorcaro, do Banco Master.

Curiosamente, no mesmo palanque Lula pediu votos para Leandro Grass e afirmou que iria se dedicar à eleição do candidato petista ao Governo do Distrito Federal.

Bonito no discurso.

Só que existe um pequeno problema de lógica política.

Se Lula realmente acredita que Leandro Grass será governador, por que não teria interesse em colaborar para que o futuro governador petista recebesse um BRB recuperado?

É aí que, na minha opinião, o discurso começa a tropeçar nas próprias pernas.

Lula acredita mesmo em Leandro Grass?

Minha leitura é simples: Lula não acredita na vitória de Leandro Grass.

Não apresento isso como informação de bastidor nem como algo confessado pelo presidente. É minha conclusão política diante daquilo que estamos assistindo.

Se Lula estivesse convencido de que Grass estaria sentado na cadeira de governador em janeiro, qual seria a lógica de dificultar agora uma solução para o BRB?

Seria politicamente racional ajudar a preservar o banco, fortalecer sua liquidez, proteger seus trabalhadores e entregar ao eventual governo de seu companheiro de partido uma instituição em melhores condições.

Mas não.

Lula escolheu o caminho oposto.

O GDF busca uma operação de até R$ 6,6 bilhões e sustenta que não está pedindo simplesmente dinheiro do Orçamento da União, mas a participação federal como garantidora da operação. O assunto está judicializado no STF. A União, por sua vez, apresenta objeções fiscais e técnicas à garantia.

Portanto, existe uma discussão técnica real.

Mas Lula resolveu transformá-la em frase de palanque: não vamos dar dinheiro ao BRB.

Muito mais fácil.

O populismo agradece.

Lula não parece ter muita simpatia por Brasília

Também tenho outra opinião, construída ao observar a postura política do presidente em relação ao Distrito Federal: Lula não demonstra simpatia por Brasília.

Não afirmo que seja possível entrar na cabeça do presidente e descobrir seus sentimentos. Evidentemente não é.

Falo de comportamento político.

Na minha leitura, Lula frequentemente se coloca contra interesses que considero importantes para o Distrito Federal e, agora, diante de uma das maiores crises da história de seu banco público, prefere transformar o problema em arma eleitoral contra Celina Leão.

Daí a expressão "Lula odeia Brasília”.

É uma provocação opinativa, evidentemente. Mas ela traduz a sensação que sua postura deixa: quando Brasília precisa de interlocução institucional, o presidente aparece primeiro como adversário político.

E aqui está o erro fundamental.

Brasília não é Celina Leão.

O BRB não é Celina Leão.

Os funcionários do banco não são Celina Leão.

Os correntistas não são Celina Leão.

A população do Distrito Federal não é Celina Leão.

Atacar uma governadora é parte da política. Colocar os interesses de uma cidade inteira no meio da pancadaria eleitoral é outra história.

Brasília não é o saco de pancadas

Lula mira Celina Leão de maneira brutal.

Chamou uma governadora de “cínica e mentirosa” diante de uma multidão em um comício eleitoral. Foi além ao fazer acusações contra Ibaneis Rocha e questionar onde estaria o ex-governador, chegando a mencionar dinheiro supostamente roubado.

Celina respondeu dizendo que esperava que Lula agisse como presidente da República, e não como cabo eleitoral. Também argumentou que a União ajudou os Correios, mas se recusa a conceder aval à operação pretendida pelo Distrito Federal.

Podem brigar.

Faz parte.

O que não faz parte - ou pelo menos não deveria - é Brasília pagar a conta dessa guerra.

Porque amanhã Lula continua presidente, Celina continua ou não governadora, Grass ganha ou perde a eleição e a vida segue.

O BRB continuará aqui.

E os trabalhadores, companheiro?

Essa talvez seja a ironia mais desconfortável de toda a história.

Estamos falando de um presidente do Partido dos Trabalhadores.

Trabalhadores.

Pois o BRB tem milhares deles.

Celina afirmou que a instituição possui cerca de seis mil empregados. Portanto, mesmo adotando a referência mais conservadora de mais de 5 mil funcionários, estamos falando de milhares de famílias que dependem direta ou indiretamente da estabilidade do banco.

E onde essas pessoas aparecem no discurso presidencial?

Aparentemente perderam espaço para a conveniência eleitoral.

Quando digo que “Lula despreza os mais de 5 mil funcionários do BRB”, estou expressando uma opinião sobre a prioridade política demonstrada pelo presidente - não afirmando que Lula tenha pronunciado essas palavras.

Para este articulista, quem rejeita politicamente uma alternativa de recuperação de uma instituição dessa importância sem colocar seus milhares de trabalhadores no centro das preocupações demonstra, no mínimo, uma desconcertante indiferença em relação a eles.

É uma situação quase surreal.

O partido que carrega “trabalhadores” no nome parece esquecer os trabalhadores justamente quando eles atrapalham a narrativa do palanque.

Que coisa, companheiro.

Um banco não cabe num palanque

Há responsabilidades gravíssimas a serem apuradas no BRB.

As operações envolvendo o Banco Master precisam ser investigadas até o último centavo. Antigos dirigentes que eventualmente tenham cometido crimes devem responder individualmente por seus atos.

Investigações internas já provocaram afastamentos, enquanto Polícia Federal, STF e outras instituições continuam atuando sobre diferentes aspectos do caso.

Mas responsabilizar pessoas é diferente de abandonar uma instituição.

Esse é o ponto que o populismo eleitoral convenientemente tenta esconder.

Se alguém incendiou uma casa, investigamos quem acendeu o fósforo.

Não deixamos a casa terminar de queimar só porque não gostamos do proprietário.

O BRB pertence ao Distrito Federal. Sua recuperação interessa à economia local, aos correntistas, às empresas que dependem de suas operações, aos programas públicos e, principalmente, aos milhares de trabalhadores que não participaram das decisões que levaram o banco à crise.

O paradoxo chamado Leandro Grass

E voltamos a Grass.

Lula sobe no palanque, pede voto para o candidato petista, diz que Brasília merece Leandro Grass e promete trabalhar para elegê-lo.

Ao mesmo tempo, endurece contra uma solução defendida pelo atual governo para preservar o banco que Grass herdaria caso fosse eleito.

É justamente essa contradição que sustenta minha interpretação.

Se Lula acreditasse verdadeiramente que seu candidato estaria prestes a governar Brasília, teria enorme interesse político em encontrar uma saída institucional para o BRB.

Não para salvar Celina.

Não para salvar Ibaneis.

Para salvar o banco que seu próprio candidato poderia receber.

Por isso, vejo a agressividade presidencial contra o BRB como um sinal involuntário de descrença no projeto eleitoral de Grass.

No discurso, Lula diz: “vamos eleger Leandro”.

Na prática, parece trabalhar considerando que o banco continuará nas mãos do adversário.

Freud talvez explicasse.

A política já explica bastante.

Brasília merece respeito, independentemente de quem vença

Existe uma coisa maior do que Lula, Celina, Grass, PT, PP ou qualquer eleição.

Brasília.

O Distrito Federal não pode ser tratado como território inimigo porque seu governo pertence a um partido adversário do presidente da República.

Governadores passam.

Presidentes passam.

Partidos passam.

Brasília fica.

Na minha opinião, Lula erra profundamente ao transformar a crise do BRB numa extensão de sua campanha eleitoral. E erra ainda mais ao tratar uma instituição fundamental para o Distrito Federal como se ajudar sua recuperação significasse fazer um favor a Celina Leão.

Não significa.

Significa ajudar Brasília.

Talvez esteja justamente aí o problema.

Para quem olha tudo pelas lentes do palanque, salvar um banco administrado pelo adversário pode parecer derrota.

Para um presidente da República, deveria significar apenas cumprir o dever de procurar uma solução institucional que preserve o interesse público.

Porque Brasília também é Brasil.

Mesmo quando não vota em Lula.

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Claudio Campos

Publicado por:

Claudio Campos

Claudio Campos é jornalista com registro MTB/Fenaj 2993-DF desde 12 de fevereiro de 2003. Apartidarismo, imparcialidade crítica e independência jornalística são preceitos básicos que norteiam sua conduta profissional e pessoal

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