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Segunda-feira, 07 de Setembro 2026
Literatura

Identidade e rótulos

Por tudo isso a ideia de não possuir rótulos mais gera ansiedade e vazio, pois esvazia e descaracteriza a pessoa, impedindo-a de se definir, de saber o que é e como é.

Ensaios Literários
Por Ensaios Literários
Identidade e rótulos
Reprodução proibida, René Magritte; Imagem: reprodução
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 Um certo senso comum que tem se visto já há um tempo é a ideia de não se deixar definir por rótulos ou formas que outros fazem de nós. Neste sentido, é propagada a ideia de que apenas podemos dar o sentido a nós por nós, sem nos prender no que outros dizem e pensam de nós. Ainda que o que somos seja feito pela gente, pelo menos em termos de atitude e ação, embora sejamos profundamente moldados pelos espaços que vivemos e transitamos, a visão do outro, aquilo comumente chamado de rótulo, não necessariamente é algo sem valor ou equivocado. Pelo contrário, muitas vezes é a percepção de algo nosso que por vezes não vimos ou percebemos. 
      Se alguém diz que somos algo assim faz baseado no que vê, percebe daquilo que aparentamos, carregamos e, muito provavelmente, somos. Isso porque estamos sempre exalando e demonstrando características que são percebidas pelos outros. Os quais podem acertar ou errar, dependendo muito do tanto que nos conhecem. Mas independente do quanto sabem ou não de nós, associam com algo que transmitimos. Nisto se criam rótulos. 
      Conforme tais pessoas passam a nos conhecer de fato, tais rótulos podem tanto desaparecer quanto se fortalecer. Pois a imagem que lhe inspirou pode ser confirmada ou desmentida. Normalmente ela não desaparece pois carregava consigo alguma verdade, que vai sendo melhor conhecida e esclarecida. E assim desse modo, o rótulo revela do sujeito algo talvez mesmo a ele desconhecido. 
     A negatividade que é normalmente associada a rótulos vem de uma equivocada noção de liberdade na qual se defende que ser livre seria algo com não apenas não ter rótulos, como não ser definível, ser algo que está em constante mudança, não cabendo em definições, por assim dizer. Porém isto ao invés de gerar liberdade gera apenas ansiedade e vazio, pois a pessoa, em sua aparente indefinitude, se aliena de si, não vendo as próprias características. Nisto se afasta da identidade, pois não a conhece, estando neste infinito e indefinível lugar. 
     Identidade esta que muitas vezes está manifesta na própria forma de a pessoa ser e lidar com esta questão. Pois não é somente algo imposto socialmente, mas uma manifestação profunda de como a pessoa é e a maneira como lida com fatos sociais. Os fatos e mecanismos sociais existem, mas a maneira como a pessoa a eles reagirá e agirá, dentro de suas condições, estão diretamente relacionados para com sua identidade, suas características, que é ela, em suma. 
    E por todo este aspecto de formação, por tudo aquilo que, muitas vezes querendo ou não, torna a pessoa aquilo que a compõe, seu ser. E nisto surgem os chamados rótulos, que refletem características percebidas e ou pensadas neste processo pelos outros. E, se não abarcam tudo que a pessoa é, no mínimo reflete algo que ela transmite ou é percebida, sendo assim uma forma de ser ela vista ou entendida. A pessoa não vai se limitar aquilo, mas, pelo menos, saberá o que passa e transmite, podendo até entender mais de si a partir disto. 
    Por tudo isso a ideia de não possuir rótulos mais gera ansiedade e vazio, pois esvazia e descaracteriza a pessoa, impedindo-a de se definir, de saber o que é e como é. Não necessariamente será ela apenas aquilo, porém sendo ela aquilo, aquilo será, tendo consigo uma série de características profundas. E delas se adquire maior e melhor entendimento sobre si, o que se é e para onde vai.          
   Então a identidade, o ser, não rejeita rótulos, pois estes fazem dela parte ou, ao menos, conseguem identificar algumas características emanadas ainda que, por vezes, do jeito errado. E essencialmente a identidade é real pois sempre nos enquadramos em algo, sempre somos e nos caracterizamos por algo.  Tal caracterização não necessariamente nos delimita, mas nos dá algo para sermos, que se dá a partir de algo que mostramos. E a partir disto podemos até compreender melhor nossa identidade, para sermos o que realmente somos.  

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