Vivemos um cenário político em gritante contraste com aquele de 25 anos atrás. Se na época estava se consolidando a onda rosa, por ter uma ascensão de governos de esquerda em diversos países da América Latina, especialmente do Sul, agora, num processo que vem vindo já de uma década para cá, estamos tendo a consolidação da chamada onda azul, que seria uma onda conservadora. O contraste se dá principalmente nestes termos, nesta oposição entre um momento em que ideias de esquerda, justiça e igualdade social foram mais fortes e vigentes, hoje em dia se pensando mais individualmente as questões, focando em ideias mais de alguns méritos.
Se por lá se trazia com mais força uma ideia de se criar uma sociedade mais justa, um outro mundo, hoje a retórica dominante é a de que se deve fazer salvação individual, que nosso bem depende de nós mesmos, não devendo haver uma questão social e coletiva em torno disto. Isto é reforçado por algumas narrativas recentes, que ganharam bastante força. Com a chamada uberização do trabalho e o aumento da pejotização se criou a noção de empresário de si mesmo. Na qual o indivíduo se vê como uma empresa, como algo que produz e faz. Não mais como uma pessoa que trabalha e precisa disto para viver, mas como empresa a ser gerida. Isto reforça diretamente a noção de se pensar individualmente, sendo alguém que precisa gerir e pensar para si. Surgida a partir da segunda metade dos anos 2010, tem se fortalecido cada vez mais.
Este é um dos melhores exemplos da mudança de discurso e de pensamento cultural, o qual está diretamente associado também com uma diferente estrutura e postura política. Pois na conjuntura da onda rosa, que tinha figuras como Lula, Os Kirchner, Chavez e Evo Morales, houve, pelo menos durante o período, um certo discurso mais coletivista, onde se voltava para criar uma sociedade e instituições mais justas, voltadas para que se estruturassem condições e aspectos sociais que estivessem mais igualitários, permitissem estruturalmente uma melhor forma de se viver. Durante os anos 2000, se houve um maior programa de políticas sociais na América do Sul, feita por este governo. Houve otimismo econômico, também motivado pelo boom das commodities, os principais produtos econômicos destes países. Houve melhoras em vários índices o que, na esteira desse otimismo, se teve várias movimentações. Inclusive algumas edições do Fórum Social Mundial, na minha cidade Porto Alegre, com o slogan: “Um outro mundo é possível”.
Teve-se então essa maior onda otimista, com expectativas de que de fato haveria uma mudança social e um novo jeito de ser. O que seria um contraponto a amargura e pessimismo dos anos 90 gerados pelo fim da União Soviética, década na qual o capitalismo parecia perene e invencível. Agora seria uma revolução feita não tanto por uma quebra direta do sistema político econômico, mas um implodir, um mudar de dentro para fora. Esta onda rosa, com seus altos e baixos, teve várias ações.
Talvez seu momento final tenha sido a captura de Maduro no começo de 2026, por Donald Trump, mas, no caso brasileiro, já vem ela bem enfraquecida pelo menos desde 2016. Com a queda de Dilma, juntamente com a crescente uberização, se houve um contínuo enfraquecer de estruturas e programas sociais, feitos pelos governos Temer/Bolsonaro e mesmo Lula mais continua do que reverte tais condições. O que deu lugar ao pessimismo e um discurso social cada vez mais individualista, onde se pensa mais que cada um deve se proteger e salvar, não tendo mais pensando numa estrutura social mais justa e igualitária. Com isso, se perde muito a perspectiva de outro mundo possível, sendo, ao invés disto, mais do mesmo, o mesmo mundo com as mesmas lógicas e regras.
Em frente a isto, parecendo ser um momento e uma onda da qual se parece estar se mergulhando continuamente nesta lógica social, onde não apenas se prega cada vez mais a individualidade das ações, cada um por si, como também uma contínua precarização das estruturas e condições sociais. O que cria uma maior precarização para um maior número de pessoas, levando a maior pobreza e miséria em médio e longo prazo. Ainda é possível outro mundo? Sim, porém precisará de uma mudança que seja de fato estrutural, não apenas momentânea e superficial. Uma maior organização e projeto político nisto se torna necessário. O México ainda mantém uma tendência mais de esquerda, com mais sólidos projetos. Ainda não é perfeito, mas já é um caminho mais possível. Pensando este caso e outros, a realidade brasileira precisará de profundo conhecimento de si para que outro Brasil seja possível. E depois outro mundo também.
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a visão da Agência 2CNews. Não corrigimos erros ortográficos de colunistas.
Comentários: