Aguarde, carregando...

Domingo, 07 de Junho 2026
Literatura

Viver depressa e autoficção

Interessante, porém, é notar uma outra autora, também do mesmo estilo, que produz autoficção, mas vai numa abordagem diferente.

Ensaios Literários
Por Ensaios Literários
Viver depressa e autoficção
Brigitte Giraud; GettyImages Crédito: Bertrand Guay.
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

        Um estilo literário que tem despontado bastante nos últimos 20 anos em cenas literárias ao redor do mundo é o da autoficção. Tendo como principal país a França foi, em certa media um novo explorar, uma radicalização da ficção autobiográfica. Enquanto a ficção semi ou autobiográfica é feita focando em criar personagens que passam por algo pelo qual o autor passou ou que pensa, na autoficção o próprio autor se literatiza ou então o faz com episódios e partes de sua vida. Tal estilo consagrou escritores como Annie Ernaux, Nobel de literatura 2022, Peter Handke, Nobel de 2019, Edouard Louis e Karl Ove Knausgard. Dos citados, tirando talvez Handke, os demais focam sua obra em contar essencialmente das relações familiares, como se davam com os parentes, trajetórias, relações etc.  
    Interessante, porém, é notar uma outra autora, também do mesmo estilo, que produz autoficção, mas vai numa abordagem diferente. A francesa Brigitte Giraud, em seu livro Viver Depressa, também usa um evento real de sua vida, a morte do marido num acidente de moto no ano de 1999, para fazer literatura. Partindo e analisando este evento por todos os ângulos possíveis, constrói um romance baseado na ideia do “E se”. A autora observa durante o livro que, enquanto as coisas estão acontecendo, simplesmente fluem, em continuidade. No entanto, quando algo ruim ocorre, todos os pontos são constantemente revisados, para se ver o que poderia ter sido feito e evitado aquilo, em que ponto surgiu aquilo ruim que se ocorreu. 
   Os títulos de quase todos os capítulos começando com a expressão “E se”, dão a forma da obra algo bastante voltado para a construção de todos os lados do trágico evento, sendo em certa medida algo inovador por testar múltiplas perspectivas de uma mesma coisa, no caso algo bastante pessoal para a autora. Ao refletir sobre os eventos que estavam em volta e antecederam o acidente, ocorrido após o cruzamento de um sinal, reflete todos os aspectos e lados de sua dor, permitindo refletir sobre todas as coisas e aspectos que rodeiam e influenciam no trágico, no ruim que acontece. 
    Ocorreu pouco após terem comprado uma casa em Lyon França, onde a autora vive até hoje, com filho de 8 anos. A moto era um meio de transporte comum para eles, porém, em 1999, durante alguns dias, o irmão de Brigitte, cunhado de seu marido Claude, deixou uma moto diferente, de corrida, a Honda CBR 990 FireBlade. Moto japonesa muito potente, que não podia ser usada no Japão no trânsito, apenas em pistas. Na França era liberada para uso comum. Claude era motoqueiro, mas não acostumado com esse modelo. E, ao passar por um sinal, caiu com ela, morrendo, em 22 de junho de 1999. Estavam quase se mudando para a casa comprada.
    Revendo vários detalhes e aspectos da história que sintetizei acima, a autora consegue fazer uma série de comentários, observações e colocações sobre o que ocorreu com ela e como, talvez, pudesse não ter ocorrido. Dentro disto, constrói uma obra reflexiva, retroativa e muito interessante, tanto pelo conteúdo quanto pela forma. O que, no panorama da autoficção atual, se coloca como inovador e diferente pois, fugindo do padrão de narrar a trajetória familiar, fala de uma saudade e um luto pela morte do marido, falando de sua vida, mas em outro aspecto dela. E, também por isso, traz uma nova abordagem e material para tratar nesse estilo caracterizado por literatizar a própria vida. 
    O livro como um todo, pensando em seu título “Viver depressa”, tirado de um verso de Lou Reed (viver rápido, morrer jovem), é uma obra que faz algumas reflexões sobre a vida, sobre algumas ações, sobre o ruim que acontece e as coisas que a ele levam. E faz isso dentro da autoficção, falando da própria vida. E assim fazendo se torna um respiro uma novidade neste gênero por pensar algum evento trágico, fatal, as coisas em volta dele e tudo que disto pode ser narrado e feito literatura em cima. Giraud se coloca uma autora que rompe status quo do estilo, narrando outra coisa de seu mundo, com abordagem diferente da mais comum em autoficção.      
 

Comentários:
Ensaios Literários

Publicado por:

Ensaios Literários

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR