Talvez nenhuma outra música tenha unido tantas tribos no Brasil quanto “Felicidade” de Lupicínio Rodrigues. Sendo originalmente um samba, já foi regravado por MPB, rockeiros, sertanejos e outros. Então musicalmente se encaixou em vários estilos, a mesma letra servindo para várias formas e expressões musicais. Isso reside muito na própria inteligência, densidade e, especialmente, na poesia da música.
São os dois primeiros versos dos mais poéticos da música brasileira: “Felicidade foi embora/ e a saudade no meu peito inda mora”. A perda da felicidade, a queda em uma tristeza, e a saudade daquela felicidade perdida ali expressas, com uma grande e densa simplicidade, que rende a poesia destes versos, se tornou algo repetido por aí, parte do vocábulo brasileiro. Consegue aqui Lupi expressar toda a dor de se perder a felicidade e a vontade deste estado sair.
E para sair, conforme continua a música, reside diretamente o aspecto de ir lá pra fora, onde a falsidade não vigora. Ir para esta casa detrás do mundo, com o pensamento que parece uma coisa toa, mas com ele voamos. Então estar ali remete a uma nova felicidade, a um reencontrar dela neste local, onde ali se vive. Uma letra bastante simples, mas, como dizia Clarice Lispector, só se consegue a simplicidade com muito trabalho. Aqui não foi diferente, com versos simples, porém muito certeiros em suas afirmações e evocações, que conseguem trazer de forma versejada uma visão e uma ligação muito complexa de seu poeta com seu tema.
A força poética destes simples versos conseguiu conquistar profundo e grande espaço na música brasileira, tendo recebido já várias versões de cantores variados, em vários estilos. Para mim que escrevo quem gravou a melhor versão dela foi a rockeira Rita Lee, gravada em 1993. A forma de cantar suave e bela casou muito bem com a música, dando uma bela união entre voz e letra. É uma música amplamente conhecida nacionalmente, pelo menos os dois primeiros versos sendo cantados pela maioria das pessoas.
A ideia da felicidade expressa, a qual se dá em um local onde estamos em grande paz e harmonia conosco, talvez um pouco mais distantes, nos coloca diante de uma noção de que estamos felizes estando bem com nós mesmos. E assim é. Para ser feliz, é preciso, antes de outras coisas, haver uma harmonia e equilíbrio interno emocional. Estando assim, ainda que nem todos os momentos sejam bons, conseguimos manter uma estrutural forma de se estar bem, garantindo-se uma felicidade. Fatores externos, que podem ir desde condição social até desejos, formas de ser e viver, são também fatores de influência e decisão neste estado e equilíbrio.
Felicidade é algo diretamente relacionado com a sabedoria. Somente é possível ser feliz tendo algum tipo ou nível de sabedoria. Pois sabendo-se as coisas da vida e sua essência, se permite organizar e sentir melhor as coisas que nela estão melhor harmonizando e gerando uma felicidade. Com os pensamentos voando e um bom lugar, material e metafísico, para se estar, se consegue criar uma felicidade. As vezes irá embora deixando saudade, mas é possível de ser recuperada. Ao cantar esta situação em seus densos e belos versos, Lupicínio Rodrigues criou uma canção de perenidade, de profundidade que vários músicos atingiu, e ainda atinge.
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a visão da Agência 2CNews. Não corrigimos erros ortográficos de colunistas.
Comentários: