Alguns filmes, apesar de não terem muito bem uma trama de eventos, sendo mais a contemplação de uma série de cenas e as coisas nelas subliminares, ainda assim conseguem ser bastante bons e bem feitos, pelo que colocam em tela e pelo que estão contemplando. Neste caso, um filme que bastante bem se encaixa nisto é “O pântano”, lançado em 2001, dirigido por Lucrecia Martel. O título do filme, no original “La Ciénaga”, possui algumas camadas. Fala essencialmente sobre algumas férias de família envolvendo duas primas, na casa de uma na província argentina de Salta, terra natal da diretora. A casa está situada em um vale pantanoso, mas o pântano também está na piscina da casa, completamente verde. A própria deterioração da casa carrega uma coisa meio pantanosa. Mas, talvez especialmente, há um pântano na família, na relação entre eles.
A talvez protagonista é Mecha, mãe da família, alcoólatra e um tanto amargurada com a situação familiar e da vida. No começo do filme ao tropeçar e cair com vários copos de vidro encostados no peito, se corta e tem de ir ao hospital, ficando o resto do filme mais parada, não exatamente em repouso, mas com menos ações. Tem como marido Gregório, homem infiel e que pinta os cabelos, aparecendo em algumas cenas mais como incômodo. Junto com isso temos a filha do casal Momi, a qual está sempre junto da filha da empregada, a qual se chama Isabel. Nada é explicito no filme, mas entendi que havia uma atração lésbica entre elas. Tem ainda o filho José, que vem ver como a mãe está deixando a esposa em Buenos Aires. Do lado da prima, temos como destaque o filho Luís, que é curioso, e quer ver o cachorro do vizinho, o qual está sempre latindo.
Sem entrar muito em mais detalhes para evitar algumas revelações, fiz um rápido perfil dos personagens. A partir disto, o que temos são uma série de cenas de família, em situações cotidianas, cada um reagindo ao dia a dia da maneira que é. Nisto também começam a aparecer os vários lados, as coisas pegajosas e profundas neste pântano familiar, que vai além de uma paisagem botânica. Ao desenvolver tais cenas entre os personagens, trazendo conceitos relacionadas com a personalidade de cada, o que cada um faz ou pensa de acordo com o que vai acontecendo.
Se embasando muito na ideia de pântanos, de algo sujo, gasto e mal cuidado, Lucrecia Martel consegue trazer um filme de várias cenas em que isso aparece de maneira física e concreta, mas também como retrato daquelas relações familiares, das podridões da classe média argentina e, guardadas as proporções e semelhanças, também do resto da América Latina. Ao mostrar este pântano existente na família, mostra o quanto as coisas se escondem, se colocam mesmo em coisas e momentos inesperados. Como obra estética, o pântano se coloca como esse contemplar de cenas, uma série de coisas que ocorrem e refletem os personagens. O filme consegue com sua contemplação falar de muitas viscosidades, muitas coisas que ocorrem nos pântanos familiares, sendo apenas sutil e sagaz nas cenas que traz.
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