Quando Riobaldo, em Grande Sertão: veredas, fala que viver é muito perigoso, sempre completando a frase com uma ideia diferente, está esmiuçando o que é viver e os perigos disto. Minha favorita de todas é quando diz ele que “Viver é muito perigoso, porque aprender a viver é que é o viver mesmo”. Nesta questão de aprender a viver e seus perigos, me remeteu também a uma clássica frase, feita pelo general romano Pompeu e ressignificada por Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Sendo originalmente usada pelo general em sentido militar, para incentivar soldados a agirem nas imperialistas navegações romanas, Pessoa trouxe um novo sentido para a segunda parte, de que viver não é preciso.
Se originalmente significava que viver não era necessário, que o realmente era necessário era navegar, para garantir sucesso e conquistas militares aos imperadores romanos, agora atingia o significado de ser algo que não possui precisão. Então a navegação é precisa, por envolver matemática, cálculos, conhecimento do mar e, especialmente, navegar de um ponto ou outro, algo preciso e objetivo. Mas a vida por sua vez não seria. Não estaria precisamente determinada, com um sentido ou ação certa para ela. Além de também significar não ser algo previsível, que possa ser realizada e prevista, mas imprecisa e incerta.
Viver é então impreciso, envolvendo muitas coisas inesperadas e muitas incertezas na vida, na sua instabilidade e imprevisibilidade. Se, por um lado, as estruturas sociais criam sólidas realidades para as pessoas, nas quais normalmente nascem e morrem na mesma, ricos morrendo ricos, classe média morrendo classe média e pobres morrendo pobres. Pode haver algumas diferenças ao longo da vida, mas normalmente se segue assim, até por ser algo bem estruturado, que se sustenta e reproduz continuamente, usando as pessoas de cada classe como peças do jogo. Neste sentido, pela própria organização humana, poderia se dizer que viver é então preciso. Tende-se a se ter a mesma realidade material e social ao longo da vida, seguindo, de uma maneira ou outra, precisamente, aquilo que a estrutura social nos reserva.
No entanto, há uma certa imprecisão da vida no que ela significa ou do que dela fazemos. Se, dependendo de posição social, temos liberdade para ação, isso pode adquirir imprecisão sobre o que somos ou faremos a partir disto. Pois, por não termos as precisões definidas, podemos nos ver em um caminho ou outro. E, já que não há precisão e garantias, torna-se algo perigoso. Quando elaboramos e pensamos a vida, buscando solidificar e fazer nela caminhos, veredas, estamos diante de algo bastante impreciso. Pois, se muita coisa já é socialmente pré determinada, por outro, ainda assim existe uma imprecisão na vida e uma constante necessidade de pensamento e ação para as imprecisas coisas do dia e da vida.
Mesmo quando acordados e temos a sensação de como será o dia, que provavelmente assim será, há sempre a possibilidade de algo inesperado desviar aquilo e algo ruim vir a partir dali. Dependendo do que for, poderá ser devidamente consertado e contornado, retomando o bom rumo do dia. Mas a imprecisão está sempre a espreita, chegando de forma e maneira inesperada. Então é algo sempre presente, uma possibilidade a espreita. Podemos até cuidar para que não ocorra, mas as brechas e possibilidades para ela são quase que infinitas, sempre tendo alguma possibilidade.
É então o viver algo impreciso, pelas próprias variações e questões que estão presentes na vida. E por isso, viver não apenas não é preciso, como é perigoso, bastante perigoso. Pois é instável e forte, sempre tendo imprevistos e consequências. É, em alguns sentidos, como uma moto. São frágeis e instáveis bases que podem jogar longe seu piloto e lhe estraçalhar, caso não seja bem usada. Mas, tendo bom uso e conhecimento, se torna algo deleitoso e magnífico, incomparável. Se viver não é preciso, é preciso dominar suas imprecisões para nela se aproveitar e sentir melhor.
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a visão da Agência 2CNews. Não corrigimos erros ortográficos de colunistas.
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