Aguarde, carregando...

Sexta-feira, 23 de Outubro 2026
Literatura

Viver não é preciso

Viver é então impreciso, envolvendo muitas coisas inesperadas e muitas incertezas na vida, na sua instabilidade e imprevisibilidade.

Ensaios Literários
Por Ensaios Literários
Viver não é preciso
Barcos em mar tormentoso, pintura de Willem Van de Velde II; Imagem: reprodução
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

   Quando Riobaldo, em Grande Sertão: veredas, fala que viver é muito perigoso, sempre completando a frase com uma ideia diferente, está esmiuçando o que é viver e os perigos disto. Minha favorita de todas é quando diz ele que “Viver é muito perigoso, porque aprender a viver é que é o viver mesmo”. Nesta questão de aprender a viver e seus perigos, me remeteu também a uma clássica frase, feita pelo general romano Pompeu e ressignificada por Fernando Pessoa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Sendo originalmente usada pelo general em sentido militar, para incentivar soldados a agirem nas imperialistas navegações romanas, Pessoa trouxe um novo sentido para a segunda parte, de que viver não é preciso.
     Se originalmente significava que viver não era necessário, que o realmente era necessário era navegar, para garantir sucesso e conquistas militares aos imperadores romanos, agora atingia o significado de ser algo que não possui precisão. Então a navegação é precisa, por envolver matemática, cálculos, conhecimento do mar e, especialmente, navegar de um ponto ou outro, algo preciso e objetivo. Mas a vida por sua vez não seria. Não estaria precisamente determinada, com um sentido ou ação certa para ela. Além de também significar não ser algo previsível, que possa ser realizada e prevista, mas imprecisa e incerta. 
     Viver é então impreciso, envolvendo muitas coisas inesperadas e muitas incertezas na vida, na sua instabilidade e imprevisibilidade. Se, por um lado, as estruturas sociais criam sólidas realidades para as pessoas, nas quais normalmente nascem e morrem na mesma, ricos morrendo ricos, classe média morrendo classe média e pobres morrendo pobres. Pode haver algumas diferenças ao longo da vida, mas normalmente se segue assim, até por ser algo bem estruturado, que se sustenta e reproduz continuamente, usando as pessoas de cada classe como peças do jogo. Neste sentido, pela própria organização humana, poderia se dizer que viver é então preciso. Tende-se a se ter a mesma realidade material e social ao longo da vida, seguindo, de uma maneira ou outra, precisamente, aquilo que a estrutura social nos reserva. 

Leia Também:

     No entanto, há uma certa imprecisão da vida no que ela significa ou do que dela fazemos. Se, dependendo de posição social, temos liberdade para ação, isso pode adquirir imprecisão sobre o que somos ou faremos a partir disto. Pois, por não termos as precisões definidas, podemos nos ver em um caminho ou outro. E, já que não há precisão e garantias, torna-se algo perigoso. Quando elaboramos e pensamos a vida, buscando solidificar e fazer nela caminhos, veredas, estamos diante de algo bastante impreciso. Pois, se muita coisa já é socialmente pré determinada, por outro, ainda assim existe uma imprecisão na vida e uma constante necessidade de pensamento e ação para as imprecisas coisas do dia e da vida.
    Mesmo quando acordados e temos a sensação de como será o dia, que provavelmente assim será, há sempre a possibilidade de algo inesperado desviar aquilo e algo ruim vir a partir dali. Dependendo do que for, poderá ser devidamente consertado e contornado, retomando o bom rumo do dia. Mas a imprecisão está sempre a espreita, chegando de forma e maneira inesperada. Então é algo sempre presente, uma possibilidade a espreita. Podemos até cuidar para que não ocorra, mas as brechas e possibilidades para ela são quase que infinitas, sempre tendo alguma possibilidade. 
     É então o viver algo impreciso, pelas próprias variações e questões que estão presentes na vida. E por isso, viver não apenas não é preciso, como é perigoso, bastante perigoso. Pois é instável e forte, sempre tendo imprevistos e consequências. É, em alguns sentidos, como uma moto. São frágeis e instáveis bases que podem jogar longe seu piloto e lhe estraçalhar, caso não seja bem usada. Mas, tendo bom uso e conhecimento, se torna algo deleitoso e magnífico, incomparável. Se viver não é preciso, é preciso dominar suas imprecisões para nela se aproveitar e sentir melhor.      

Comentários:
Ensaios Literários

Publicado por:

Ensaios Literários

Saiba Mais

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR