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Terça-feira, 08 de Setembro 2026
Política

7 de Setembro: independentes de quem?

No Dia da Independência, o Brasil desfila entre suspeitas, silêncio e uma crise institucional que já não cabe debaixo do tapete. A República está ruindo — e o caso Moraes-Vorcaro tornou impossível fingir que está tudo bem

Claudio Campos
Por Claudio Campos
7 de Setembro: independentes de quem?
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Sete de Setembro. Dia da Independência do Brasil. A pátria amada, idolatrada, salve, salve. O país que, segundo o Hino Nacional, repousa “deitado eternamente em berço esplêndido”. Talvez esteja aí o problema: dormimos demais. E, enquanto o Brasil cochila, suas instituições parecem travar uma batalha que já não é apenas política. É uma batalha pela própria credibilidade da República.

Neste 7 de Setembro, os chefes dos Três Poderes apareceram juntos na Esplanada dos Ministérios. Lula, Edson Fachin, Davi Alcolumbre e Hugo Motta dividiram o palco institucional justamente quando Brasília atravessa uma das mais constrangedoras crises recentes do Supremo Tribunal Federal. Alexandre de Moraes e André Mendonça, protagonistas do terremoto, não estavam no desfile.

Conveniente.

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Porque talvez faltasse espaço na tribuna para o elefante que tomou conta da Praça dos Três Poderes.

O celular que falou demais

O problema tem nome e sobrenome: Daniel Vorcaro.

O ex-dono do Banco Master tornou-se personagem central de uma história que deixou de circular apenas nos corredores de Brasília. O material obtido pela Polícia Federal no celular de Vorcaro trouxe à tona mensagens, referências a encontros, pedidos de ajuda e documentos relacionados a Alexandre de Moraes e ao escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.

O relatório da PF reúne dezenas de mensagens enviadas por Vorcaro a um número atribuído a Moraes. Entre elas aparecem pedidos relacionados às investigações que cercavam o banqueiro, referências ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

É coisa pequena.

Coisa banal.

Afinal, quem nunca teve um banqueiro investigado mandando mensagem enquanto tenta saber o que acontecerá com sua própria investigação?

O problema é que a ironia termina exatamente onde começam as instituições.

Segundo informações tornadas públicas sobre o material da PF, aparecem ainda registros de encontros e negociações envolvendo contratos milionários entre o Banco Master e o escritório da esposa de Moraes. Um dos contratos mencionados nas investigações girava em torno de R$ 131 milhões.

Há também referência a uma segunda proposta envolvendo dezenas de milhões de reais e até cotas de avião e helicóptero.

Tudo isso precisa ser investigado até o último ponto, a última vírgula e a última mensagem.

Porque também é indispensável registrar: o material divulgado até agora não demonstra que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos por Moraes, nem representa uma condenação do ministro.

Mas é exatamente por isso que investigar não deveria assustar ninguém.

Muito menos o Supremo.

Quando investigar vira problema

E eis que começa o espetáculo brasileiro.

André Mendonça determinou a elaboração do relatório pela PF, retirou o sigilo do material e encaminhou o assunto à Procuradoria-Geral da República.

A PGR reagiu questionando a própria validade do procedimento. Paulo Gonet pediu a anulação do relatório, argumentando que Mendonça não poderia ter determinado diretamente à Polícia Federal uma investigação envolvendo outro ministro do Supremo sem autorização do plenário ou da própria Procuradoria.

Agora o caso caminha para o plenário do STF.

Traduzindo para quem está assistindo de casa: enquanto o cidadão comum tenta entender o conteúdo das mensagens, parte da discussão institucional já está concentrada em saber como elas foram investigadas.

É o Brasil em estado puro.

A casa está cheia de fumaça e a primeira preocupação é discutir quem tinha autorização para chamar os bombeiros.

E o Supremo?

O STF deveria ser a instituição na qual a sociedade encontrasse serenidade quando todas as demais entrassem em crise.

Hoje é justamente de dentro dele que vem parte da turbulência.

O presidente da Corte, Edson Fachin, falou em preservar a integridade do Supremo e anunciou que adotará as medidas cabíveis.

Está correto.

Mas preservar uma instituição não significa proteger seus integrantes das perguntas incômodas.

É justamente o contrário.

Instituições são preservadas quando ninguém está acima delas.

Se as suspeitas forem infundadas, que uma investigação transparente demonstre isso.

Se houver irregularidades, que sejam apuradas.

O que não cabe é transformar qualquer questionamento sobre um ministro do Supremo numa espécie de ataque sacrílego ao Estado Democrático de Direito.

Ministro do STF não é monarca.

Não recebe coroa.

Não ganha salvo-conduto moral.

Não é proprietário da Constituição.

E não pode ser imune ao escrutínio público.

A República está ruindo

O episódio envolvendo Moraes e Vorcaro é especialmente devastador porque atinge exatamente o ativo mais precioso de um tribunal: confiança.

A República está ruindo quando o brasileiro começa a acreditar que existem dois países: aquele das leis rigorosas para o cidadão comum e aquele das intermináveis explicações institucionais para quem vive nos andares superiores do poder.

E talvez seja justamente esse sentimento que esteja corroendo Brasília.

O cidadão olha para a Praça dos Três Poderes e pergunta: quem fiscaliza quem?

Quem investiga quem?

Quem julga quem?

E, principalmente: quem tem coragem de mexer nesse vespeiro?

O Senado possui instrumentos constitucionais para fiscalizar ministros do Supremo. Parlamentares já defenderam publicamente o impeachment ou a renúncia de Alexandre de Moraes depois das novas revelações.

Davi Alcolumbre, porém, continua sendo personagem central porque cabe à Presidência do Senado papel decisivo no andamento de pedidos dessa natureza.

Na Câmara, Hugo Motta parece ter descoberto uma extraordinária técnica política: quanto maior a tempestade, menor a exposição.

E o Planalto?

Lula atravessa a crise sem transformar o episódio numa guerra aberta com o Supremo.

Talvez seja prudência institucional.

Talvez seja conveniência política.

O tempo dirá.

Mas há momentos em que o silêncio dos poderosos produz mais barulho que qualquer pronunciamento.

A democracia relativa

Criamos nos últimos anos uma perigosa mania nacional: cada lado defende instituições apenas enquanto as decisões dessas instituições favorecem o seu próprio lado.

Quando a decisão agrada, viva a democracia.

Quando desagrada, ditadura.

Quando investigam o adversário, funcionam as instituições.

Quando chegam perto dos aliados, abuso.

Assim não existe República.

Existe torcida organizada com Diário Oficial.

Democracia não pode ser relativa.

Ou as regras valem para todos ou são apenas instrumentos de poder.

Não existe Estado Democrático de Direito verdadeiro quando determinados personagens parecem grandes demais para serem questionados.

E também não existe democracia quando acusações substituem provas.

Justamente por isso Moraes precisa ter direito a se defender — e o Brasil precisa ter o direito de saber.

Uma coisa não elimina a outra.

A Praça está cheia de ratos

Brasília sempre gostou de metáforas.

Palácios.

Colunas.

Cúpulas.

Espelhos d'água.

Tudo monumental.

Tudo pensado para transmitir grandeza.

Mas monumentos não salvam instituições.

Caráter salva.

Transparência salva.

Limites salvam.

Prestação de contas salva.

Quando esses pilares desaparecem, sobra apenas o concreto.

E cresce no cidadão a sensação de que a Praça está cheia de ratos.

São os ratos do oportunismo, da conveniência, do compadrio, do silêncio interessado e da certeza de que o poder sempre encontrará uma porta dos fundos.

Da mesma forma, uma democracia não sobrevive quando admite autoridades cruéis com adversários e extraordinariamente compreensivas consigo mesmas.

A régua precisa ser uma só.

Esse deveria ser o princípio mais simples da República.

O povo no sofá

Talvez a parte mais triste seja olhar para fora dos palácios.

O brasileiro parece exausto.

Escândalo virou rotina.

Denúncia virou entretenimento.

Bilhões perderam significado.

A indignação dura algumas horas nas redes sociais e depois é substituída pelo próximo vídeo, pela próxima fofoca, pelo próximo campeonato.

É a anestesia perfeita.

Um povo cansado deixa de cobrar.

Um povo desinformado deixa de compreender.

E um povo que acredita que nada pode mudar termina aceitando praticamente tudo.

Essa talvez seja a forma mais eficiente de submissão política: aquela que dispensa correntes porque o próprio cidadão desistiu de reagir democraticamente.

Independência

Hoje é 7 de Setembro.

Há bandeiras nas ruas, aviões no céu, tropas marchando e autoridades nas tribunas.

Tudo muito bonito.

Mas independência não é desfile.

Independência é instituição funcionando.

É juiz podendo julgar e podendo ser investigado.

É senador fiscalizando.

É deputado perguntando.

É presidente governando sem tratar instituições como propriedades de ocasião.

É imprensa investigando sem escolher previamente quem merece ou não ser investigado.

E é cidadão cobrando sem precisar vestir a camisa de político algum.

Duzentos anos depois do grito às margens do Ipiranga, talvez esteja na hora de outro grito — absolutamente democrático, constitucional e pacífico.

Não contra a República.

Em defesa dela.

Porque governos passam.

Presidentes passam.

Senadores passam.

Deputados passam.

Ministros do Supremo também passam.

O Brasil fica.

E neste 7 de Setembro de 2026, entre discursos sobre soberania e fotografias oficiais, há uma pergunta incômoda atravessando a Esplanada:

afinal, independentes de quem?

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Claudio Campos

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Claudio Campos

Claudio Campos é jornalista com registro MTB/Fenaj 2993-DF desde 12 de fevereiro de 2003. Apartidarismo, imparcialidade crítica e independência jornalística são preceitos básicos que norteiam sua conduta profissional e pessoal

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