Não só nesta parte do mundo, mas no resto dele, as relações e a organização do trabalho são coisas historicamente difíceis, marcadas por exploração, relação, poderes e distribuição desiguais. Ainda que já houvesse tais questões antes do surgimento do capitalismo, vale mais a pena nele aqui focar, uma vez que as relações e condições de trabalho estão nele ancoradas, já há um bom tempo. Pela realidade material então posta, é a partir dele que se deve alterar tal realidade.
Pensando em seu surgimento, começa este na Europa, com a ascensão da burguesia como principal classe social bem como seu modo de vida, focado na acumulação de capital. Então, a partir do momento que a principal forma de enriquecer e possuir força política e social era através do capital, surge o capitalismo. Que se dá, num primeiro momento, na produção fabril e na relação entre patrão e empregado. O primeiro controlando os meios de produção, tais como fábricas, fazendas e alguns outros tipos de empresa, tinha o controle e os bens produzidos. Os segundos, trabalhando para ele, recebiam uma remuneração pelo trabalho, porém não tinham sobre ele controle ou usufruto das coisas do empreendimento.
Tal relação surgiu na Europa, sendo feita entre europeus, porém rapidamente se espalhou para outros cantos, para a expansão dos mercados deste mesmo capital. Cada lugar do mundo firmou então diferentes relações de trabalho, aqui na América Latina houveram marcas de serem países mais fortemente explorados, com menos legislação e organização do trabalho, além de uma estrutura social construída em relações de escravidão. Ao longo do tempo, foram se modificando tais relações. Pode-se destacar legislações formadas a partir da década de 1930. Que criaram corpos de direitos sociais e articulação dos sindicatos juntamente com os governos. Ainda que tais sindicatos tenham sido essencialmente aliciados e, consequentemente, controlados pelos governos, ainda assim uma importante plataforma para suas reinvindicações. Teve isso como figuras Getúlio Vargas no Brasil, Juan Peron na Argentina e Lazaro Cárdenas no México.
Nas décadas seguintes, com avanços e retrocessos, tais estruturas se mantiveram. Em alguns momentos houveram melhoras e outros pioras. No caso do Brasil, houve reforma trabalhista em 2017, a qual dizia que “rasgaria” a CLT, porém isto não conseguiu. Dela modificou muita coisa, suspendendo coisas até então já bastante consagradas pela Consolidação. Porém não a destruiu. A jornada diária se manteve, férias de 30 dias também, bem como o pagamento de horas extras ou a aplicação de banco de horas. Mesmo os governos de Temer e Bolsonaro tendo querido ir bem mais fundo nesta questão, não lhes foi possível.
Agora, em fevereiro de 2026, tivemos duas notícias simultâneas da América Latina que apontam para lados opostos na questão das relações de trabalho. Uma na Argentina de Javier Milei e outra no México de Claudia Sheinbaum. O primeiro aprovou no senado, indo já para a câmara dos deputados, um projeto que aumenta a jornada de trabalho diária para 12 horas, permite que o patrão decida quando pagará horas extras e tira as férias previstas. É uma brutalidade que nem no Brasil veio. Ao passo que no México, se aprovou a redução da jornada de trabalho de 48 para 40 horas semanais. Que será implantada gradualmente, baixando 2 horas por ano, devendo atingir o previsto até 2030. É algo que já vem sendo discutido no país há muitos anos, sendo agora implantado.
Isto mostra uma diferente postura por parte dos governos. Enquanto, na atualidade, o único projeto progressista está na América Latina está sendo feito no México, pelo projeto do Morena, vemos que aparece esta redução. Ainda que, certamente, não ataque diretamente a raiz do problema, os quais estão na organização do trabalho e no sistema capitalista, mesmo assim consegue-se que haja algumas melhorias, alguns paliativos. Ao passo que Milei segue a isto retaliando na Argentina. No Brasil está marcada para maio a votação em relação ao fim da escala 6X1, sem colocar ainda em perspectiva a redução da jornada de trabalho, que talvez venha em pauta. Dando foco nas relações de trabalho, a intervenção e transformação desta precisa ser uma das principais pautas de governo para garantir um maior bem estar aos trabalhadores e melhoras em suas vidas, o que gerará uma melhor sociedade. Ainda bem imperfeita, mas já com traços melhorados. É um projeto mais forte no México e insipiente no Brasil. Caso o governo queira se reeleger, ou outro queira assumir com estas propostas, terá de ter algo sólido voltado para isso.
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