A ideia de prosperidade, por ser um sólido bem estar e um grande sucesso pessoal, está entranhada socialmente de todas as maneiras, mesmo a religiosa. Em si ela possui uma noção abstrata, na medida em que pode significar várias coisas em vários níveis, mas possui também uma diretamente material, isto é, algo que está ligado na vida concreta. Neste sentido, seu significado primordial é a de sucesso e de bem viver. Por vivermos em sociedades capitalistas, este sucesso passa sempre, pelo menos em algum nível, na pessoa possuir algum tipo de capital para atingir tal prosperidade. Capital esse que tem um fim monetário, pelo espaço em que este material ocupa na sociedade, mas também com variações, como capital intelectual, político, simbólico, cultural e de alguns outros tipos.
Tendo essa necessidade por causa da base social, buscam as pessoas de todas as maneiras este capital. E é isto colocado, vendido e espraiado como ideia em todos os locais. Duas das mais flagrantes e visíveis formas disto é a chamada teologia da prosperidade, que vende a ideia de sucesso financeiro como maneira de se agradar e se aproximar de Deus, que são a base das igrejas neopentecostais, em franco crescimento no Brasil desde a década de 1990. E também a cultura dos coachs, que cresceu muito no país de uns 10 anos para cá, contando agora no ano de 2025. Que vendem uma prosperidade e melhora de vida a partir de uma dita mudança comportamental, normalmente apoiada em aspectos místicos e mesmo rituais um tanto quanto místicos. Tendo estas duas coisas uma profunda noção com a ideia de prosperidade material, cabe uma análise para pensar de onde elas vêm, sobre quais bases se assentam, o que representam e ao que estão ligadas.
Como a ideia de prosperidade está relacionada a posse de capital, faz com que aqueles que desejam prosperar o busquem. Por ser uma questão mesmo de sobrevivência, diferente não poderia ser, pois torna-se uma necessidade direta, algo sob o qual não se pode prescindir para se conseguir viver. Porém, a prosperidade e o bem comum são inalcançáveis nas relações sociais capitalistas. Isto porque, sendo algo estruturalmente desigual, alguns poderão prosperar, ao passo que outros não. Portanto, a maneira que se poderia formar uma comum prosperidade seria uma mudança nas relações sociais, passando diretamente pela ação de um estado que seja capaz de promover este bem comum, reestruturando e reorganizando relações, as regulamentando de maneira a organizá-las.
Por ser uma forma de bem estar e de bem viver, todos querem prosperar. E não é isto errado, pois significa todos quererem estar em boa condição. No entanto, a maneira como é vendida essa forma de prosperar que é sim problemática. Pois pressupõe mais uma prosperidade individual do que propriamente um bem comum, que seja capaz de espraiar tal condição. Até porque em formas individuais não é possível a prosperidade de todos. E agora isso fica cada vez mais difícil, pois há cada vez mais capital concentrado nas mãos de cada vez menos gente, levando a um aumento nas faixas de pobreza e uma redução do poder das classes intermediárias. Neste cenário onde há menos poder social e econômico para mais gente, se multiplicam também coachs e pastores. Pois, por venderem uma possibilidade de se prosperar numa mistura de auto ajuda, religião e conceitos aparentemente eficazes, conseguem fazer uma promoção e fazer as pessoas comprarem esperança.
No entanto, são promessas vazias. Não apenas porque é isto vendido sem um grande embasamento real, mas porque também só é possível a prosperidade em um cenário e estado que possibilite isso. Ou seja, para se prosperar torna-se necessário, de alguma forma, reverter esse cenário de empobrecimento e concentração. Através de uma outra gestão governamental e social, capaz de criar políticas públicas e uma organização social que permita isso, crie as condições necessárias. A real e verdadeira prosperidade apenas disto poderá vir, gerando um maior bem estar coletivo, relacionado com tal forma de organização, algo cíclico. Se a prosperidade é o bem comum, precisa ser espraiada a todos.
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