Na mesma hora, Inácio olhou para baixo, como que num desespero de ainda tentar pegá-lo. Nada viu. Os demais se acalmaram em seguida, não achando certo que tivesse ele caído de tal forma. Mas também não estavam dispostos a querer resgatá-lo. Se consolaram concluindo que tinha ele caído sozinho. Voltaram para o acampamento, se ajeitando nas barracas. Messias viu o ocorrido, mas fingiu nada ter enxergado. Apenas Inácio ficou mais sentido. Não falava, mas isto era visível nele.
Maurício, no entanto, não incorrera numa queda livre. Acabou se encostando na parede do penhasco, conseguindo ir se apoiando nela. Acabou parando em uma pequena parte de terra da descida, uma estreita faixa numa parte da montanha. Viu que podia, com cuidado, ir por ali andando até chegar na estrada principal novamente. Uma vez ali, subiu de volta o percurso feito anteriormente. Acabava, até meio por instinto, reconhecendo aquele caminho, embora ainda não o conhecesse bem. Percebeu que, na queda, o fone de ouvido tinha pifado. Ainda ficava preso nele, mas não mais emitia sons. Se sentiu aliviado com aquilo. Olhava para os lados, já estava em uma parte alta daquilo. Agora parecia ter até mais vigor. Porque queria chegar logo onde havia abrigo.
Chegou um bom tempo depois onde estavam acampados. Todos dormiam, ninguém ali fora. Foi até a barraca onde estava Inácio. O rapaz ficou bem feliz de que ele estava vivo no final. Queria falar, mas não podia fazer barulho, para surpreender os outros pela manhã. Contou que Messias não o escutava mais, pois tinha pifado o fone na queda. Inácio muito com isso se animou, gostando de ver que ele estava livre. Dormiram.
O outro dia, começou cedo, com Messias já fazendo altos barulhos e pregando aos berros, para que todos levantassem. Uns tantos, já de cara, o chamaram, acordando, de várias coisas, algumas bem diferentes de seu nome. Entre eles Maurício, mas este não fez diferença pois o aparelho não lhe captou a fala. Impediu que Inácio falasse besteira para não se encrencar com o líder. Sorridentemente, Messias disse uns tantos estarem devendo. Caso não pagassem no momento seria cobrado com juros quando voltassem.
Mais uma vez um grande mal estar coletivo se gerou ali, com um forte sentimento de revolta. Percebendo isso, Messias ressaltou que aquilo fazia parte de ser homem. Aguentar, com a força masculina, as dores e coisas ocorrendo no mundo, com a dignidade de um homem que aguenta aquilo para proteger e melhorar a família. E, em cima disto, pregou por uma meia hora. Alguns até se envolveram com as palavras bíblicas, mas mesmo estes tinham já um ressentimento. Principalmente por causa do que já tinham pago para irem e pelo que queria ele que pagassem a mais.
Depois do sermão matinal, seguiram a trilha. Maurício continuava carregando a barraca de Inácio. Vários já desconfiavam de coisas que podiam acontecer a noite debaixo daqueles panos, se olhando. Os dois só respondiam com um olhar de que nada a ver o que estavam pensando. Com todo o peso carregado, logo o assunto era ignorado, e apenas continuavam. Ao longo do dia, várias vezes, paravam para cortar lenha, fazer flexões, correr e diversas outras atividades. Sempre sob as ordens de Messias, o qual apenas ordenava.
Em várias ocasiões, não gostando da maneira como tinham organizado as coisas coletadas, mandava refazer tudo. Com eles podres de cansados do serviço, tinham de fazer outra apenas pelos caprichos do mestre. Um chegou a comentar com o outro que parecia a esposa dele nos dias em que queria mudar os móveis da casa de lugar. Ao passo que Messias confirmava ter ouvido aquilo no microfone acoplado.
Naturalmente, todos carregavam sozinhos o que coletavam. Muitos reduziam o que tinham, para não ficar tão pesada aquela carga. As atividades iam assim se passando ao longo do dia, seguidas por longas trilhas de subidas montanhosas. Quando alguém sentia dor nas pernas, Messias parava tudo para ficar um tempo pregando, passando mesmo lições de moral a eles. Uma canseira, junto com um ressentimento, era algo que seguia vindo.
Ao cair da noite, chegaram em outra clareira, agora num ponto mais alto da montanha. Se olhasse para baixo, veria o chão bem mais longe que da noite anterior. Agora Maurício estava com mais medo, até por isso ficando um tanto mais parado que antes. Messias foi para uma cabana maior, com melhor comida que a outra. Novamente serviriam má comida aos lendários, eles tendo de com aquilo ficar.
Alguns ficaram um tempo olhando a lua, as estrelas, a cidade ao fundo, pensando na vida e na morte da bezerra. Maurício só pensava em aquilo terminar logo, o tempão que aquilo estava lhe consumindo, e sua pessoa também. Lembrava de Ângela que, iludida, tanto quisera que fora ele para ali. E acabara indo. Pensava em Inácio, pensando no que estava no porvir do rapaz. Provavelmente coisas boas, mas com aqueles parentes não tinha certeza. Inácio sentia várias aflições, a ideia de que estava subindo uma frágil montanha que podia ruir e cair a qualquer momento. Não se achava realmente bom alpinista. Mas só iria em frente.
Quando o dia amanheceu, Messias anunciou que aquele dia chegariam no topo. Uma vez lá, fariam os juramentos dos lendários, depois desceriam. Ali sentiriam seu ser homem pulsar plenamente, agora tendo todo o poder para vencer na vida e na família, recuperando a dignidade perdida do homem na sociedade moderna. Agora estavam perto disto. Todos morrendo de sono, com medo de ficarem devendo mais, concordaram como quem não quer concordar. Passaram o dia fazendo as mesmas tarefas, chegando ao topo novamente no cair da noite.
Uma vez lá, já bem sentidos com tudo que vinha acontecendo nos últimos dias, ficaram acompanhando-o falando. Lá pelas tantas Messias, já um tanto acometido de vários sentimentos que consigo trazia, foi um tanto quanto mau com Maurício. Este questionando vários de seus pontos e ideias, especialmente relacionando à inutilidade de se subir a montanha para ser algo que já não existia mais, pois não era assim que homens deve agir e se organizar, falando em alto e bom tom, foi jogado no chão pelo mentor, que lhe segurava colocando o pé em sua cabeça.
Então, da maneira mais insuportável possível, mantendo a cabeça segura com o pé em cima, Messias o seguia xingando, lhe desmerecendo. Que sua esposa tinha cometido um terrível engano em com ele ficar, que era inútil, nada fazia. E não passava de uma bichona que não sabia fazer as coisas dos homens no mundo. Os demais assistiam meio petrificados, com medo de serem os próximos. Quando chegou ao ponto de ser chamado de incapaz por Messias, aí então sentiu. Disse que agora ele estava incapacitado, mas que o próximo seria ele.
Antes que Messias conseguisse de fato processar o que tinha ouvido, sentiu algo acertar violentamente seu rosto. Era o punho cerrado de Maurício, lhe acertando bem no maxilar. Que conseguiu se livrar daquele pé e revidara com tal ato. Neste momento, deu para ver como que sangue saindo, bem como uma plástica rasgando. Carlos Junqueira estava agora no chão.
A própria expressão do demônio surgiu no rosto do derrubado. Que, numa violência e ação sem precedentes, tentou revidar em níveis muito piores contra Maurício. Mas foi impedido pelos demais lendários que, se sentindo encorajados, foram diretamente para cima daquele ladrão que estava lhes roubando. Caiu tantos em cima dele de uma única vez que não tinha a menor ideia de quem era ele. Sequer se mexia, estava de vez no chão. Fez um movimento invisível, entretanto. Em questão de minutos ouviu-se o som de tiros. Todos se apavoraram e fugiram. Um helicóptero veio, sem chegar a descer e recolheu Junqueira, totalmente quebrado, mas vivo. Mais nada souberam sobre ele os lendários.
Mas estavam ali agora sozinhos, sem saber como sairiam de lá. Maurício, se sentindo bem mais aliviado, se decidiu a guia-los de volta até onde tivesse sinal de celular. Conseguiram descer a montanha sem parar, chegando ao pé no amanhecer. De lá pediram socorro. Foram levados até a cidade mais próxima, de onde foram encaminhados para as suas respectivas. Maurício voltou para Ângela, contando o que ocorrera. Comovida sentiu que havia errado. Voltaram para sua vida.
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a visão da Agência 2CNews. Não corrigimos erros ortográficos de colunistas.
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