Quando pensamos no desenvolvimento da inteligência de uma criança, geralmente lembramos da escola, dos professores, dos livros e dos estímulos familiares. Mas existe um fator essencial que nem sempre recebe a devida atenção: o saneamento básico. Como esperar que uma criança desenvolva plenamente suas capacidades quando vive exposta ao esgoto, consome água contaminada e adoece frequentemente? A relação entre saneamento e educação vai muito além da saúde. Envolve concentração, memória, desenvolvimento cerebral e oportunidades de aprendizagem. Os dados brasileiros são preocupantes. Segundo o Censo Demográfico 2022, do IBGE, apenas 62,5% da população tinha acesso à coleta de esgoto. Considerando também soluções adequadas de fossas sépticas, o índice chegava a 75,7%. Isso significa que milhões de brasileiros ainda vivem sem condições adequadas de esgotamento sanitário. E as crianças estão entre as mais prejudicadas. Um estudo do Instituto Trata Brasil, em parceria com a EX Ante Consultoria, apontou que aproximadamente 6,6 milhões de crianças de até seis anos tiveram suas atividades cotidianas prejudicadas por doenças relacionadas à falta de saneamento em 2019. Os reflexos também aparecem na aprendizagem. Uma análise divulgada pelo Instituto Trata Brasil em 2026, com base nos resultados do SAEB 2021, identificou que estudantes do 5º ano que moravam em residências sem banheiro apresentaram resultados 45,5 pontos inferiores em Língua Portuguesa e 39,5 pontos inferiores em Matemática, em comparação com aqueles que possuíam essa estrutura. A ciência ajuda a explicar essa relação. Infecções recorrentes, diarreias, deficiências nutricionais e processos inflamatórios podem comprometer o desenvolvimento infantil. Estudos internacionais publicados no BMJ Open também identificam associações entre condições precárias de saneamento e piores resultados no desenvolvimento cognitivo e motor. Isso não significa que a falta de saneamento determine a inteligência de uma criança. Significa que ela pode crescer em condições que dificultam o desenvolvimento de suas capacidades. É preciso, portanto, ampliar nossa compreensão sobre os desafios da educação brasileira. Nem toda dificuldade de aprendizagem começa na sala de aula. Algumas têm origem muito antes, na ausência de condições básicas de saúde e dignidade. Investir em professores, tecnologia e infraestrutura escolar é indispensável. Mas não podemos esperar resultados iguais quando as condições de desenvolvimento das crianças são tão desiguais. Não basta oferecer carteira, caderno e professor se, fora dos muros da escola, faltam água tratada, banheiro e condições mínimas de saúde.
Saneamento básico também é política educacional. Garantir água limpa e esgoto tratado é proteger a infância, favorecer o desenvolvimento cognitivo e oferecer oportunidades mais justas de aprendizagem. Afinal, não podemos cobrar os mesmos resultados de crianças que não tiveram as mesmas condições para desenvolver seu potencial.
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