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Sexta-feira, 10 de Abril de 2026

Política

De Ronald a Donald

Tal processo de enfraquecimento de entidades e da presença do estado começou na década de 1980...

Pedro Fagundes de Borba
Por Pedro Fagundes de Borba
De Ronald a Donald
Ronald Reagan e Donald Trump na década de 1980; Picryl
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 Os anos 1980 estabeleceram as bases econômicas sobre as quais vivemos até hoje. Talvez por isso a cultura da época seja ainda tão presente no pensamento popular, sendo frequentemente referenciada e lembrada. Foi um ponto de virada no capitalismo, o qual esmigalhou o até então vigente estado de bem estar social praticado desde a década de 1930 em boa parte de seus países. Se durante este período anterior houve um pouco mais de regulamentação das relações econômicas, bem como maior estrutura de proteção social por parte do estado e entidades como sindicatos, por fatores diversos, ali isto começou a ser desestruturado, num processo ainda hoje presente. O famoso neoliberalismo. Tal processo teve como principais figuras simbólicas o presidente americano Ronald Reagan e a primeira ministra britânica Margaret Thatcher. Irei neste texto focar em Reagan, pelo peso político que desempenhou neste processo, o quanto nos fez chegar onde estamos e como Ronald levou a Donald Trump, na época um magnata do ramo imobiliário, distante da política.  
    Com o surgimento da União Soviética e outros regimes socialistas, juntamente com a crise econômica de 1929 e pressões da população e entidades, o capitalismo se viu sem outra saída se não negociar e barganhar tais demandas, especialmente como maneira de enfraquecer as ideias socialistas que surgiam em vários de seus países. Assim, a partir da década de 1930, tendo como principal influência o New Deal dos Estados Unidos, se começou a ter um sistema que mantinha suas estruturais desigualdades, porém corrigia alguns problemas. Garantia algumas seguridades sociais, especialmente na Europa e alguns países da América Latina. Nos EUA também, mas de maneira diferente. Dava também mais força e poder para sindicatos e outras entidades, permitindo melhor negociações entre patrões e empregados. Isso ajudou a melhorar pragmaticamente a condição de muitas pessoas, levando a maiores taxas de emprego. E no bloco socialista também houveram algumas políticas mais ou menos similares, porém feitas com outras bases políticas. 
    Porém, no bloco capitalista, a partir da década de 1980 inicia-se um desmonte desta forma econômica, favorecendo mais a desregulamentação das relações de trabalho e uma dita livre iniciativa. Especialmente nos EUA, com a eleição de Ronald Reagan, começam-se a serem cortados diversos benefícios sociais e políticas públicas por lá, bem como a presença governamental. Isto feito sob o mantra de que o governo seria um problema, ou que aumentaria a pobreza. Sob tal ideologia, tais formas de melhorias sociais e ações governamentais para mitigar a desigualdade foram sendo abandonadas. Pois o capital já não comportava mais isto, estando cada vez mais financeirizado e concentrado, em frequentes crises. 
    Tal processo de enfraquecimento de entidades e da presença do estado começou na década de 1980, continuou na década de 1990. Na de 2000 se houve uma freada disto, se recuperou um pouco o estado de bem estar social. No Brasil isto ficou mais visível durante os governos Lula I e II, que montaram um estado como o citado, também muito ancorado no boom das commodities. A partir de 2008, no entanto, uma nova crise do capital faz com que volte o neoliberalismo, novamente promovendo desregulamentações e agora, talvez, com mais força que antes. No Brasil isto começou a chegar um pouco depois, mas veio já nos governos Dilma. 
     A volta desta piora social, aliada de uma crise fortíssima que foi se prolongando durante a década de 2010 criou um sentimento de indignação social e de mal estar que foi apropriado e canalizado pela extrema direita. A qual tem como principal representante Donald Trump. Que pegou este mal estar social junto com alguns preconceitos que estavam adormecidos, mas ainda existentes, tais como racismo e xenofobia, para criar uma plataforma política, se vender como uma solução para tais problemas. Porém sem em momento nenhum questionar o capital e sua ordem, muito pelo contrário, o servindo tremendamente. Assim se desviava deste problema enquanto se captavam pessoas pelas consequências do momento em que está o capitalismo agora. O qual tem crises cada vez maiores e mais frequentes e está se acumulando em porções cada vez maiores nas mãos de poucas pessoas e grupos, aumentando a pobreza em larga escala. Tais poucas pessoas usaram deste artificio de discursos e figuras da extrema direita para proteger o capital e sua ordem, como maneira de manipular as situações. 
     Em uma maneira abrangente, o governo Reagan assentou as bases para que se chegasse nesta situação. Ao desregulamentar a sociedade e aumentar a concentração de capital, se fez com que houvesse uma piora nas condições sociais, dos mais pobres especialmente. Bem como a diminuição das perspectivas de vida e possibilidades que podiam ser desenhadas pelas pessoas, as encurralando. Embora tenha tido alguns momentos em que isto diminuiu, como na década de 2000, é a principal ordem econômica dos últimos 40 anos. Que resultou no primeiro mandato de Trump. Mesmo a reação progressista que elegeu Biden e Lula, pouco conseguiu reverter dela, especialmente o presidente brasileiro. E a volta de Trump, que busca um isolamento dos EUA e uma revitalização forçada não a desmanchará, no máximo impondo tarifas a outras países, que tentará aumentar a presença de produtos americanos. 
   Se a ordem criada seguir, a concentração será cada vez maior. Gerando uma instabilidade e problemas sociais cada vez mais profundos. O qual só poderá ser evitado com uma reformulação social e a mudança da ordem. Se o capital ainda é bastante poderoso, as demandas e organização social tem força para pedir menos concentração, novas formas e relações de trabalho e mais bem estar social. Apenas assim será possível melhorar condições de vida e aumentar a qualidade geral das pessoas. Algo que há quarenta anos está cada vez menor.      

Pedro Fagundes de Borba

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Pedro Fagundes de Borba

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