Jornal da 2CNews

Sexta-feira, 17 de Abril de 2026

Política

Violência policial e combate ao crime

a violência policial pura e simples, associada com ataques em favelas é um enxugar de gelo no combate ao crime

Pedro Fagundes de Borba
Por Pedro Fagundes de Borba
Violência policial e combate ao crime
Militares em favela; Wikimedia commons
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Como as coisas são de grande complexidade e, muitas vezes, apenas uma pequena fração de todo este processo chega ao público geral, muitas pontas acabam ficando soltas e são, por isso, distorcidas. Uma ideia que se propagou muito principalmente entre a classe média há bastante tempo é a de a solução para o crime no Brasil seria simplesmente um aumento da repressão policial. Isto de alguns anos tomou mesmo a forma de um slogan, se dizendo que bandido bom é bandido morto. O que vem diretamente de um ódio que se forma a criminalidade, por ser ela uma corruptela social, uma contrariedade ao que forma a base da sociedade.

Neste sentido, quando há uma operação grande contra as favelas do Rio de Janeiro, passa um sentimento de que algo está sendo feito, de que o crime está diminuindo. O que em verdade não ocorre. Principalmente por tais operações ocorrerem em favelas. Locais onde ficam apenas os de mais baixo escalão do crime brasileiro, peões facilmente substituíveis. Os grandes chefes se protegem, até por serem muito bem relacionados com figuras de poder. Esta recente operação que parou o Brasil diz ter como principal objetivo a captura do chefe do Comando Vermelho, Doca. O qual segue solto não foi pego. Isto muito pelas redes de poder e relações que mantém.

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Essencialmente falando, o crime nas favelas se aproveita de uma contradição para aliciar novos membros: se por lado ele não compensa, pois é uma vida perigosa e curta, por outro ele paga bem. Trabalhando para os criminosos jovens periféricos terão acesso a coisas que dificilmente teriam trabalhando honestamente, tais como roupas caras, veículos e o poder de compra que o dinheiro gera de forma geral. Por ser adquirido de forma ilegal acarretará em todos os efeitos da sociedade contra eles, porém ainda terão um curto acesso que dificilmente teriam honestamente. Esse é um dos fatores que fortalece e facilita o aliciamento de jovens para o crime.

Quando vão para esta vida o acesso a tais itens é uma moeda de troca, uma forma de aliciar e prendê-los aos traficantes que fornecem tais iscas. Nisto vão deles devendo favores e se enrolando em tal rede, da qual não saem mais. E são facilmente substituíveis. Quando morrem, pela polícia ou por guerra de gangues, podem ser trocados por outros, que passarão pelo mesmo ciclo. Então nestes casos a ação policial é bastante ineficaz como forma de combate ao crime. Que é o majoritariamente feito nas ações policiais feitas no Rio de Janeiro nesta última semana. O ataque recaiu sobre a população pobre, com os grandes chefes bem protegidos.

Existe nesta operação e em tantas outras que são feitas nas favelas do Rio de Janeiro um forte elemento de controle social. O efeito de prender aqueles que cometeram e/ou são envolvidos com o crime é apenas um deles, talvez nem o principal. Porque ao manter estas ações e patrulhamento há uma questão intrínseca de controle social envolvido, de manter o ambiente sob controle policial, mantendo a realidade ali presente e suas formas de organização social. Muito mais do que maneira de cumprir justiça o papel preponderante é de exercer tal controle, reafirmando formas de coerção social presentes no estado brasileiro.

Observando todos estes aspectos e questões relacionadas para com tudo isto, a violência policial pura e simples, associada com ataques em favelas é um enxugar de gelo no combate ao crime. Pois envolve principalmente atacar partes pequenas dele, sem poder de decisão dentro da estrutura. O que realmente poderia mudar seria algo que realmente agisse contra as estruturas do crime organizado, visse como este se infiltrou e criou simbiose com a política. Isto envolveria profundas mudanças político econômicas, pois o crime se alimenta e cresce nelas. Se isso não ocorrer, os líderes, como Doca, vão seguir escapando e se protegendo. E os de baixo escalão morrendo.

Pedro Fagundes de Borba

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