Ainda que seja a mais influente figura política brasileira nas últimas quatro décadas, pelo menos pelo lado da esquerda, Lula sempre foi alguém com algumas limitações políticas e de ação um pouco mais travada. Surgido já no contexto das greves sindicais, associado as pastorais da terra, ao novo sindicalismo, a reorganização das lutas políticas no final da ditadura e de movimentos sociais que surgiam, bem como na mesma época em que surgia e se enraizava o neoliberalismo, é uma figura bastante típica do período.
Quando começou a ganhar tal notoriedade, havia já uma corrente de esquerda já mais histórica, que era o trabalhismo, representado então por Leonel Brizola. Já havia tido uma série de conquistas históricas, como a CLT, uma certa organização sindical, ainda que sob cooptação do estado, e uma organização política que insistia em manter uma organização social voltada para o povo, em alguma medida. Foi suprimida durante a ditadura, voltando em seu final. Lula e o PT surgem nesse contexto, como uma nova forma de organização política, voltada diretamente para os trabalhadores, de onde vem o nome do partido. Tinha ainda consigo alguma perspectiva revolucionária, embora fosse essencialmente já uma forma de conciliação política, voltada para manter a estrutura capitalista, porém aumentando um pouco negociações entre patrões e empregados, tal como Lula já fazia como líder sindical.
Especialmente a partir das eleições de 1989, a relação entre o petismo, tendo Lula como principal representante, e o trabalhismo, representado por Brizola, foi um pouco espinhosa, tendo várias divergências, ainda que com algumas convergências. Ambos tinham um espectro mais de esquerda, Brizola apoiado no já tradicional e consolidado trabalhismo, Lula num amplo projeto de vários setores, essencialmente conciliadores. Tal aspecto um pouco mal definido do petismo fez com que Brizola dissesse muitas vezes ser o PT uma galinha que cacareja para a esquerda, mas põe ovos para a direita. Esta retórica se manteve ao longo da década de 1990.
Assumindo cada vez mais uma postura de conciliação política, Lula venceu as eleições em 2002. Em 2004 Brizola morre. Reconhecia o companheirismo, mas mantinhas as críticas. Ao longo dos dois primeiros mandatos de Lula, foi feita a conciliação. Se aumentou as políticas públicas, se aumentou estrutura de estado e se reduziu bastante a pobreza no Brasil. Ao mesmo tempo em que banqueiros e empresários tiveram exorbitantes lucros, usando de seu poder e influência, beneficiados diretamente pelo governo. Tudo isso no chamado boom das commodities. Isso criou um período de conciliação em que as diferenças sociais existiam, mas passava uma ilusão de aproximação, de coletivização. Que era apenas isso, uma ilusão. Já no governo Dilma há uma guinada neoliberal, que se acentuará e aprofundará nos governos Temer/Bolsonaro.
E no governo Lula III, já se encaminhando para reta final, infelizmente vemos mais uma continuidade do que uma ruptura de tal neoliberalismo. Em termos de ação política, não possui tanta diferença no modo de agir, sendo bastante similar ao de seus primeiros governos, porém em outro contexto. O qual a estrutura social estava mais prejudicada, com menos presença do estado e planejamento, fazendo com que muitas coisas fossem retiradas enquanto direitos. É o mesmo modelo de ação política e mesmo de conduta, porém em um cenário já diferente, em um neoliberalismo mais avançado, mais precarizado.
Nisto, o poder original que tinha o PT se enfraquece. Pois já não consegue alinhar e conciliar interesses, como fazia antes. Deixando as limitações do sapo barbudo aparecendo. Mais uma vez cacareja a esquerda e coloca ovos para a direita, seguindo o fluxo neoliberal e aumentando ainda mais a concentração de renda, servindo ao rentismo e ao capital. Neste cenário, novas figuras políticas teriam de trazer força. Que fale diretamente ao trabalho e o trabalhador. Isto é, que se embase nas relações de trabalho e como mudar elas, para que se reestruture a sociedade, em uma forma revolucionária. Se o sapo barbudo é limitado, ainda é a principal força de retenção ao neoliberalismo, mesmo que ainda mais o faça que evite.
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