A figura do cavaleiro medieval povoou o imaginário europeu com uma força particular. Como uma espécie de símbolo de valores, coragem e poder, se tornou um personagem recorrente a partir da Idade Média. Era, essencialmente, uma romantização de cruzados e outros personagens militares da época, os retratando como grandes e valorosos heróis. No qual ele era apresentado como alguém valoroso e bravo, capaz de enfrentar grandes perigos e manter a salvo a comunidade, sempre agindo em nome do rei ou de algum nobre que lhe incumbiu uma importante missão. Embora reis não fossem figuras muito importantes na política medieval, devido a descentralização e pouca formação dos países europeus, o poder era localizado na mão de senhores feudais e outros nobres, pois os feudos tinham mais importância que a então parca noção de nação, ganhavam eles importantes papéis simbólicos.
No século XII, na península Ibérica, no processo da Reconquista Católica, surgiu um poema que se tornaria uma das bases da cultura espanhola, o Poema (ou cantar) de Meu Cid. O qual narrava histórias, reais e inventadas, do cavaleiro Rodrigo Diaz de Vivar, conhecido como El Cid Campeador, ou o Cid Campeão. O nome Cid derivando do título árabe Sayid, que significa senhor ou mestre, lhe dava uma forte solenidade. As histórias giravam em torno dos feitos militares feito por ele e seus homens na conquista de territórios da península para os católicos, como a cidade de Valência, a qual Cid governou por alguns anos após a conquista. Somando estas várias histórias, unido a bastante folclore e imaginação popular, foi formado o poema de Meu Cid, narrando estas histórias. O poema, junto com outras obras da época e posteriores, como as de Amadis de Gaula, criou uma cultura de cavaleiros medievais, figuras que entraram nos anais da cultura europeia.
Isto no meio da Idade Média. Alguns séculos depois, já no começo da Idade Moderna, mais precisamente na virada do século XVI para o XVII, o estilo de histórias e a figura dos cavaleiros ainda eram muito presentes na cultura e imaginário espanhol e europeu. Isso criou uma cultura um tanto idealizada e afastada da realidade, onde se viviam cavaleiros num mundo de honra e valores, num forte contraste com o mundo real. Neste momento, Miguel de Cervantes, observando tudo isto, já um escritor de boa experiência, decide escrever uma sátira desta cultura existente, criando o personagem Alonso Quijano, que após ler muitos livros de cavalaria enlouquece e pensa ser um deles, pegando uma armadura velha pertencente a um bisavô e sai pelo mundo se intitulando Dom Quixote de La Mancha, um dito grande cavaleiro.
Quando assim fez, ao tentar fazer tal sátira, pretendia mostrar a distância entre aquilo que se tinha em obras como El Cid e a realidade. Tanto na ação dos personagens, naquilo que realmente faziam, como na ausência dos tais valores citados. Porém, pela própria força da literatura, e de maneira consciente ou não, conseguiu ele ir muito mais fundo. Especialmente por mostrar um personagem, Dom Quixote, que acreditava em tais valores e que era de fato um cavaleiro, posto em um mundo disto tão diferente, mostrou um grande abismo, uma grande contradição entre estes espaços e a forte bondade quixotesca. Isso criou um dos maiores livros já feitos, que alcançou muito além de sua base.
Conceitualmente falando, a noção do cavaleiro é algo que se entranha e se entrelaça fortemente com aspectos culturais e mesmo em outras formas. Tal figura em sua forma, suas características, chega em coisas ainda não tão bem entendidas, refletindo aspectos nossos ainda não bem vistos, guarda consigo bastante força. E isso em várias formas, desde o idealizado Cid até o satírico Quixote. Isso porque, talvez, como figura encarne o ser humano em suas várias contradições e formas, isso ainda mais forte em Dom Quixote, que fantasia com tal figura enquanto enfrenta e vive o mundo real. Toda essa figura, a fantasia e a mística em torno dela são algo ainda muito presente culturalmente, no tanto que Dom Quixote ainda é importante.
O texto acima expressa a visão de quem o escreveu, não necessariamente a visão da Agência 2CNews. Não corrigimos erros ortográficos de colunistas.
Comentários: