Já de alguns meses que Trump vem anunciando que fará uma intervenção militar na Venezuela, a qual está sendo assentada. Em si isto já entra em conflito com sua postura de campanha, que focava em prometer ao seu eleitorado que diminuiria o envolvimento dos Estados Unidos em assuntos geopolíticos mundo afora, sendo mais voltado para as questões internas do país. O que já era em si uma mentira, a qual se mostra agora. Como um interesse já antigo dos EUA nesta intervenção, agora o complexo industrial militar de lá se organiza para intervir.
É interessante notar que, para sedimentar e justificar ideologicamente tal ação, além de recorrer ao antissocialismo (Venezuela nem é propriamente socialista), também se junta a isto uma certa cruzada moral voltada para dizer se estariam combatendo o narcotráfico e mais ainda, que as ações de tais grupos seriam terrorismo. Isso, para além de base política, apela quase para uma forma de moralidade, na qual se estaria fazendo um combate de coisas que se abominam em níveis mais profundos do que divergências ou questões políticas. E nisto se coloca diretamente o aspecto de se colocar num mesmo balaio traficantes e terroristas. Mas aqui está uma questão bastante grave que é a unificação de alvos, quando se vê duas coisas distintas como a mesma.
Quando se torna uma pessoa, ou um grupo, um alvo é necessário entender porque se mira neles e quais características ou ações se busca neutralizar. Isto pode ser feito pela via jurídica, policial ou militar, mas requer um bom conhecimento do que se irá fazer. Essencialmente algo ou alguém se torna um alvo quando rompe algum tipo de vínculo social estabelecido, vulgo cometer crime. No caso do traficante ele comete crime ao vender drogas proibidas, uma coisa que a lei não permite venda ou consumo. É um empresário de ilícitos, grosso modo. Porém mesmo criminoso o vínculo que cria não é mais fraco por isso, tendo uma ampla gama de consumidores e de pessoas as quais lhe compra o que vende, o fortalecendo e criando vínculos que se estabelecem fora da lei. É um tipo de alvo e de crime.
Terrorismo em si é um termo bastante amplo, quase um guarda chuva. Se tornou mais popular, ganhou um significado coletivo maior após os atentados de 11/09. O qual passou a ser muito associado a uma forma de disputa política religiosa entre muçulmanos e os Estados Unidos. Mas já foi usado em diversos outros contextos. Guerrilheiros da América Latina já foram em várias ocasiões e contextos considerados terroristas. Há até mesmo o chamado terrorismo de estado, quando um estado se organiza e persegue seus cidadãos ou ataca civis de outros países. Neste caso o que propõe Trump é enxergar traficantes como terroristas, o que é um equívoco, pois o interesse do tráfico é econômico, visando essencialmente a venda de seus produtos. Há também um poder político envolvido, mas vai para outra linha.
Em si está ele, em vários aspectos, reavivando a cartilha da Guerra às drogas e a usando como base para intervenção política. Como já foi feito durante a era Reagan em países da América Latina, na qual se buscava uma presença e um controle político. Ao assim fazer, se mantém controle político e econômico sob a dita questão de segurança, de defesa. Então é uma maneira de se manter controle militar sobre determinado território alegando alguma outra coisa, que serve como justificativa ideológica.
Caso façam na Venezuela o que já fizeram em países como Síria, Líbia e Iraque, irão destruir uma estrutura social, colocar empresas americanas para favorecer e dar poder econômico aos EUA, deixando o povo do mesmo jeito que antes ou até pior. O qual estará indefeso devido a ter a estrutura e a soberania do país destruído, a mercê do destruidor. Ficarão apenas explorando o petróleo e deixando a população em frangalhos, não melhorando a situação nacional. A ação americana faria com que apenas se piorasse e não melhorar. Até por não identificar corretamente alvos, igualando pessoas de traficantes e terroristas. Em si seria mais um país destruído, sem soberania.