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Terça-feira, 21 de Abril de 2026

Literatura

Os lendários- parte 2

  Era uma longa viagem, em verdade. A montanha ficava um pouco distante, numa área meio de mato.

Ensaios Literários
Por Ensaios Literários
Os lendários- parte 2
Acampamento; Pexels
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O veículo rodava, o qual pararia ao pé do local, que seria subido ao longo daqueles dias a pé pelos lendários. Junqueira ia sentado em seu banco, profundamente concentrado em algo alheio, quase como se estivesse imerso dentro de si em níveis e formas que não queria fossem vistos. Já Maurício observava todo o perfil do ônibus. Muitos daqueles pareciam estar um tanto quanto fechados, imersos na ideia de uma breve prosperidade, algo que não seria fácil, mas que já estava tomando um encaminhamento. Não pareciam pessoas muito felizes. Não que fossem propriamente tristes. No entanto passavam um mergulho e um desgosto na vida, a qual esperavam agora vencer e serem o que nunca foram, por falta de prosperidade.

   Ao lado dele ia sentado um rapaz, pelo menos uns dez anos mais moço. Parecia meio perdido e indeciso. Como se estivesse entrando em algo vasto e desconhecido, como a montanha e a floresta, e não soubesse onde parar aquilo. Provavelmente não tinha se inscrito nem vindo ali com recursos ou iniciativa própria, mas lá estava. Gostou do garoto. Nem tão garoto na verdade, não devia ter menos de 26 anos. Mas assim o via. E por isso também lhe quis ficar mais próximo e amigo. Assim descobriu se chamar o rapaz Inácio. Decidiu que ficaria próximo dele durante a viagem, e ao longo daqueles dias.  

    Quis saber mais sobre esse novo amigo. Soube que vinha ele de boa família, tendo eles um bom dinheiro. Ajudava eles, trabalhava com eles. Já tinham tido dias melhores, ainda estavam bem, mas estavam desacelerando, perdendo alguns clientes, dos grandes. Ainda tinham o maior de todos, tudo indicava que seguiriam tendo, mas não podiam se contentar com aquilo. Precisavam de novos grandes, para se recuperarem, ficarem novamente prósperos. Estavam enfrentando na justiça o processo de um desses clientes perdidos, que alegava terem eles feito uma grave contaminação em suas instalações. Não deu mais detalhes. Lhe tinham mandado para o Lendários para ver se virava um homem, o consideravam muito frouxo e afetado. Ali ia se encontrar com sua essência roubada e reprimida, diziam.

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     Maurício simpatizou com ele, dando mais palavras de amizade e dele se colocando indiretamente como se fosse um mentor. Principalmente por não confiar em Junqueira, tinha medo do que pudesse acontecer com o menino nas mãos daquele curso. Inácio sentiu isso, embora não tenha percebido diretamente. E ficou bem próximo do recém conhecido dessa forma.

      Era uma longa viagem, em verdade. A montanha ficava um pouco distante, numa área meio de mato. Ao chegarem não viam animais grandes, nem sequer insetos. Era só mato e mais mato, mas quase nenhum tipo de animal. Tinha um primeiro aspecto, uma primeira impressão de lugar selvagem cheio de desafios da natureza. Mas olhando de novo, com um mais atento olhar parecia aquilo ali qualquer coisa algo menos natural. Parecia meticulosamente limpo e planejado para ser feita uma atividade com pessoas vindo de outros lugares. Algo totalmente dominado, sem absolutamente nada de natural. Até a estrada que levava ao pé da montanha era perfeitamente cuidada, ainda que de terra.

    Parou o veículo ao pé do local. Desceu Junqueira, ordenando a todos que se organizem em duas filas indianas. Receberam as camisetas amarelas em um amarelo mais desbotado e boné preto, cada qual com um número. Era assim que seriam chamados até o final da expedição. Carlos Junqueira então colocou seu boné, da mesma cor dos demais. Porém estava escrito Messias. Era assim que deveriam a ele se referir durante aquele evento.

    Em seguida passaram por ali alguns monitores, entregando fones de ouvido para comunicação. Os quais colocaram imediatamente os membros.  Avisou então Junqueira que aquele aparelho também escutava o que dizia. E toda vez que algum deles se referisse a ele por outra coisa que não Messias teria de pagar dez reais. Assim saberiam como dar valor ao guia e seguir a hierarquia que existe entre os homens. E já estava valendo.

     Foi imediatamente sentida uma ojeriza, mesmo uma náusea e uma revolta entre os diversos membros que ali estavam. Um chegou a soltar um “Filho da puta”. Junqueira, com a maior tranquilidade e sarcasmo possíveis, simplesmente ordenou que já pagasse dez reais, em dinheiro vivo. Disse o aluno que não tinha. Ficaria então aquilo pendurado, e seria cobrado com juros quando voltassem para a cidade e ele pudesse sacar o dinheiro para sanar a dívida.

     O silêncio imediatamente se instaurou. Maurício e Inácio faziam algumas comunicações com o olhar. Sentiram se fortalecer a parceria, a ajuda. Iriam manter ajuda mutua nestas situações. Carlos voltou a falar, impassivelmente. Para descobrir a essência perdida de homem, caberia a eles subir a montanha. Deveriam pegar as barracas que tinham de trazer, conforme tinha sido especificado e carregar, para usar durante as paradas noturnas que fariam.

    Todos pegaram as suas, incluindo Inácio. Menos Maurício, que não a tinha. O rapaz ofereceu que poderia lhe dar esse abrigo quando precisasse. O homem estranhou, mas, pelas circunstâncias aceitou. Disse então que carregaria a barraca nas costas, como que em retribuição pela ajuda que viria. Messias então ordenou que a marcha começasse. Iriam subir até um dos postos, onde chegariam perto do anoitecer, e lá montariam acampamento.

     Em menos de uma hora de caminhada muitos já se queixavam de estarem com as pernas estouradas, sem qualquer preparo físico para tal missão. Messias apenas riu na hora. Mas depois decidiu pararem um pouco para recuperação de fôlego. Neste momento, sem pestanejar, tirou uma Bíblia do bolso, e começou a pregar. Sentou ele numa pedra, lendo e recitando versículos diversos do livro, sempre associando com força e a necessidade de se ser homem. Os demais sentavam no chão, em perna de índio. Além de citar versos também gesticulava e falava sobre os dias de hoje, dizendo que as mulheres, o feminismo, o vitimismo e o assistencialismo estavam emasculando os homens, os tornando fracos e dependentes do estado. Entrava em altos brados, falando até da mãe deles, de como seus pais já tinham sido fracos com eles e criado mulherzinhas que não aguentariam um dia na guerra. Sempre terminava relacionando com algum versículo bíblico, distorcendo seus significados para justificar suas falas.  

    Com essas falas, quase todos vibravam. Maurício achava a coisa mais ridícula que ouvira. Inácio ia na mesma linha. Se olhavam pensando onde tinham se enfiado com aquele Messias. Quando se recuperavam os cansados, insuflados pelos discursos, seguiam seus caminhos. Fizeram umas seis paradas ao longo do dia, todas com o mesmo processo. Mas alcançaram uma clareira no lusco fusco, conforme tinham sido informados.

    Era bem gramado, com uma cabana no meio. Nela Messias entrou, mandando os outros montarem as barracas ali e dormirem. Serviriam um jantar, basicamente uma ração, mais tarde, quando todos estivessem prontos. Maurício soltou no chão e mochila e disse para Inácio: “olha guri, já te poupei do pesado o dia inteiro. Tudo contigo agora.”  Imediatamente o rapaz montou, deixando a grande e pronta para uso. Pouco depois os demais terminaram.

      Montou a equipe, ninguém sabia como tinham chego lá, colocando uma ração, uma mistura intragável, mas, aparentemente, nutritiva para aqueles dias. Comeram, pois estavam com fome. Retiraram tudo. Pouco depois viram um ótimo cheiro vindo da cabana. Alguns quiseram invadir, mas Messias, ouvindo tudo pelos rádios, ameaçou perigosas taxas para qualquer ação concretizada, um que fizesse recairia um valor alto em cima de todos. Ainda assim se gerou uma agitação no local, com a coisa ficando meio sem controle. Maurício ficou muito indignado e quis avançar contra lá. Inácio o segurou. Os demais, com medo que tivessem de pagar algo, lhe quiseram agredir. Nisso teve ele de fugir. Meio perdido como estava na fuga não percebeu Maurício, já estavam já altos na montanha, e na beira dela, que tinha pisado em um local sem chão. E despencou pelo penhasco, soltando um agudo grito que abaixava à medida que o corpo descia.

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