Maurício não era mau, mas podia ser melhor. Era um homem bom, gentil até, desejava o bem da humanidade e de sua família. Mas as vezes cuidava melhor da primeira do que da segunda. Passava bastante tempo envolvido com questões de trabalho e de problemas sociais, se ausentando longamente várias vezes. Quando isso acontecia, muitas coisas ficavam mais difíceis. Sua esposa Ângela se incomodava, quase sempre esse peso recaindo sobre ela. O amava muito, mas se sentia insatisfeita em tais situações.
Eram casados havia uns seis anos. Já tinham tido momentos mais fogosos, agora estavam mornos. Nunca deixaram de se desejar, mas sentiam a coisa enfraquecida no momento. Como ela e Maurício trabalhavam bastante, muitas vezes não se viam. Mantinham um equilíbrio financeiro que os sustentava, mas frequentemente os deixava insatisfeitos. Nessas situações, as vezes aumentava, causando desconfortos conjugais. Os quais se somavam a contínuas insatisfações e ressentimentos cotidianos, especialmente de algumas atitudes de Maurício.
O homem trabalhava numa firma, ganhava bem. Tinha bom cargo e conseguia fazer um dinheiro bom. Conhecia seu chefe e a conduta que este colocava para a empresa, sabendo nela se conduzir, bem como mudar quando algo se alterava na mente do patrão. Não era puxa saco, porém sabia as maneiras de lisonjear o dono da empresa, usando-as quando as via necessárias. Dessa forma, além de desempenhar importantes funções para o planejamento da empresa, conseguia com que fosse uma peça de boa importância por lá, e assim mantinha seu emprego e o dinheiro que dele vinha.
Ângela também trabalhava. No caso, era dona de um mercado de bairro. Não faturava tanto quanto o marido ganhava, porém, tinha mais poder lá. As decisões do negócio passavam sempre por ela, para o bem e para o mau. Coordenava bem. As vezes a achavam dura demais, porém entendiam suas ações. E, sendo uma boa pessoa, sabia ser justa e recompensar e elogiar quando queria e/ou mereciam. Se relacionava bastante bem os funcionários, tendo uma boa conduta para com todos, a grande maioria retribuía.
Como casal, devido as dinâmicas, as vezes se viam pouco. Mas sempre tinham ao menos alguns minutos no dia. A função doméstica, embora tivessem empregada, acabava por vezes sobrando algumas questões. Por serem coisas essencialmente menores, haviam algumas divisões. Por vezes Ângela cozinhava enquanto Maurício trocava lâmpadas ou fazia consertos. Tinha bastante um caráter sexual tais divisões de tarefas que por vezes não ficavam cumpridas.
Havia por parte da esposa uma certa insatisfação. Não propriamente do casamento, pois o amava e ele também a ela. Porém sentia que ficavam muitas vezes presos a uma mediocridade, e que, muitas vezes, Maurício parecia pouco fazer para dela sair. Parecia sempre repetir os mesmos movimentos e ficar no mesmo lugar, eles frequentemente indo nos mesmos lugares e fazendo as mesmas coisas. Era uma vida boa, mas meio medíocre. No fundo, tinha ele um pensamento um pouco parecido, embora não os sentisse tanto nem lhes deixasse efluir da mesma forma que a esposa.
Em um momento de certa crise, Ângela viu que os rendimentos do mercado estavam baixando, a deixando bastante preocupada. O dinheiro que ganhava era importante para a casa, apesar do marido ter um maior. Maurício continuava recebendo, embora o trânsito e a relação com o chefe já não fossem tão bons, este estando mais mal humorado do que costumava ser. Já começava a achar o funcionário não tão bom assim, no fim das contas. Mas mantinha a postura e sempre, ao final, conseguia Maurício se entender com o chefe. E levava mais as coisas na maciota, buscando manter seu valor de funcionário. Assim iam indo as coisas, com Ângela sentindo mais e mais uma insatisfação. Querendo bastante que aquilo mudasse.
Pensava ela muito nisso. Até que, um dia, vendo o Instagram, viu algo que parecia uma radical mudança. Num vídeo um homem de camisa amarela, uma calça de trilha e botinas, se apresentando como Carlos Junqueira, prometia mudar totalmente a realidade dela e do marido. Seria capaz de fazer com que ele se tornasse próspero, um novo homem, apenas precisava que ele redescobrisse sua essência. Para isto, o levaria até um retiro espiritual de 4 dias, subindo uma montanha rodeada de penhascos e desafios. Iria apenas com suas pernas, a mentoria que oferecia e a presença de Deus. Subiria um homem ordinário, desceria lendário. Era este o nome do curso: Lendários, em referência ao que se tornavam os homens que de lá desciam. O curso custava normalmente algo em torno de R$ 20,000 na condição normal. Porém estava tendo uma promoção, que tudo ficaria por R$ 10.000,00.
Falava de uma maneira onde conseguia ligar os pontos do que queria dizer, construindo uma viável coerência. Ficou ela muito impressionada, encantada com que dizia aquele homem. Parecia uma revelação, alguém que iria fazer com que tudo mudasse. Poderia trazer novos tempos para eles. Não dizia exatamente como, apelando muito mais para uma espécie de misticismo coletivo do que para algo real e concreto. Porém era com isso muito persuasivo. A convenceu plenamente da capacidade que tinha para solucionar seus problemas. Não era barato, mas era financiável, cabia para eles. Ainda mais na promoção.
Ouviu Maurício dela sobre o curso como se fosse algo que a tudo mudaria, como se fosse alterar completamente o que tinham ou sob o que viviam. De cara Maurício não gostou, pois achou milagroso demais para ser verdade. E, tirando Jesus, não conhecia ninguém que fizesse a água virar vinho assim tão fácil. De maneira educada, disse para Ângela que aquilo tinha muita cara de roubada. Era apenas um cara querendo vender algo que, talvez, nem ele tivesse.
Ela rapidamente o retrucou, dizendo que era sim um homem riquíssimo. Tinha nascido pobre e, com o método que desenvolvera, ficara muito rico, agora querendo dividir essa sabedoria para com os outros. Era a chance de eles melhorarem, conseguirem o que sempre queriam. Se desse tudo certo, dizia ela, Maurício não precisaria mais se preocupar em agradar o chefe, pois agora teria mais do que ele. Talvez até a situação se invertesse.
Soava para ele um tanto absurda essa possibilidade, mas não queria dizer que ele não queria aquilo acontecendo. Ficou um pouco mais mole, embora ainda mantivesse um senso de impossível. Já de maneira não tão firme falou que as coisas não funcionam assim, são bem mais difíceis de serem atingidas. Nisso, bastante pensando que as coisas dariam certo, Ângela retrucou dizendo que aquilo faria deles um casal melhor, iam até ficar mais próximos se aquilo fosse para frente.
A conversa durou mais um tempo, ele vendo que aquilo era apenas um engodo que o tal homem fazia para conseguir dinheiro. Não tinha sido ninguém na vida, agora ia ensinar a ser alguém na vida. Mas toda a insatisfação da esposa, somada com aquela esperança de quem acredita que irá melhorar de vida fazia com que suas ideias pesassem mais. Assim convenceu Maurício a ir.
Fizeram toda a inscrição, souberam onde seria o local. Se encontrariam numa das praças, onde iria de ônibus de viagem até a montanha que iriam subir aqueles dias. Foram lá. Carlos Junqueira e outros inscritos tinham chego antes, todos com as camisas amarelas. Já debochou de Maurício pelo atraso, dizendo que assim já se via o homem que era. O cumprimentou em seguida, dizendo que agora começava sua vida de verdade. Lhe entregou uma das camisas, com seu nome escrito e um número: 9. Ângela se despediu e voltou. Os lendários subiram e foram para os bancos. Junqueira sentava ao lado do motorista, onde havia uma direção falsa, simbolizando que ele os conduziria para suas novas e prósperas vidas. Seguiram em direção a montanha.
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