Jornal da 2CNews

Terça-feira, 21 de Abril de 2026

Política

O país da conciliação

É um exemplo perfeito da questão da conciliação no Brasil, onde o governo fica muito refém de diversos grupos plutocráticos...

Pedro Fagundes de Borba
Por Pedro Fagundes de Borba
O país da conciliação
Lula e Alckmin; Flickr
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     A conciliação, juntamente com o poder moderador, é uma das marcas mais características da cultura e do fazer político brasileiro. Sendo um país de estruturas extremamente injustas e desiguais, concentrando em enormes níveis grande parte da sua renda em uma pequena parcela de sua população, ainda mantém consigo muito de uma organização política que mantém assim sua realidade, bem como usa de artifícios políticos para conseguir tal ação. Isso se dá porque a organização política do Brasil sabe usar de maneira conciliatória, que esvazia aquilo que algo diferente poderia propor, as jogadas, demandas e questões políticas quando estas estão acontecendo. 
      Isso acontece muito por aquilo que se chama de presidencialismo de coalizão, o conceito de Sergio Abranches. No qual a presidência do Brasil se organiza de uma maneira de coalizão. Nisto, por exigir que sejam feitos muitos conchavos e alianças para sua governabilidade, ficam os governos muito dependentes também de um ato de conciliação, tendo de jogar com diversos setores, sempre pendendo para os mais fortes. Neste processo, acaba sendo bastante influenciado e mesmo moldado por setores assim, especialmente quando não possui uma mais sólida e bem feita direção política. 
      Isso fica especialmente visível no Brasil nos governos Lula, especialmente agora no terceiro. Porque este terceiro sem uma maior base política e ideia. Embora a conciliação seja uma marca forte bastante mesmo da forma lulista de se fazer política, havia um maior projeto em seus primeiros governos, que estava ancorado em um estado de bem estar social, em fazer ou aprimorar uma série de programas de políticas públicas voltadas para este fim. E de maneira conciliatória, auxiliado por um bom momento de crescimento econômico que houve no Brasil dos anos 2000, fazendo tais políticas, conseguiu melhorar um pouco a vida dos mais pobres, enquanto aumentava grandemente as fortunas dos mais ricos, em proporção muito maior. 
      No governo atual, feito sob uma frente muita ampla, mais focada em vencer o bolsonarismo e devolver um pouco da glória de seus mandatos iniciais, além de derrubar a austeridade econômica existente desde o governo Temer, Lula foi eleito. A principal promessa era justamente mudar esse cenário econômico, tirando a austeridade, investindo em programas sociais e assim mudando a configuração. Porém, assim não foi feito. Houve de fato no começo, alguns maiores investimentos sociais, mas que foram enfraquecendo com o tempo. Nesta dinâmica, também não conseguiu romper com a austeridade, ao invés disto a adaptando para estes momentos, através de medidas como o arcabouço fiscal, que seguia limitando os gastos, ao invés de os dinamizar e fazer com que fossem um investimento na estrutura estatal e social brasileira.
     É um exemplo perfeito da questão da conciliação no Brasil, onde o governo fica muito refém de diversos grupos plutocráticos, mas também de sua própria falta de direção e ideias em frente a isto. Tendo feito uma muito ampla base para eleição, não conseguiu focar suas políticas e ideias, ficando essencialmente atado a estes grupos que querem a continuidade da austeridade e neoliberalismo em voga já há quase dez anos na política brasileira. E sem um maior projeto, embora haja um pouco de peito para enfrentamento em determinados momentos, fica ainda nesta estrutura de coalização e conciliação, sempre cedendo. A coalização mostra o controle que antigos grupos políticos mantêm no Brasil, continuando sua reprodução e continuidade. Essa permanência mantém os problemas nacionais, e tem forma e força para forçar tais processos conciliatórios, que apenas os beneficiam. Seremos ainda por muito tempo o país da conciliação, onde se tem pouco projeto e pouca força política popular e social, ficando sempre as decisões nos mesmos grupos econômicos. 

Pedro Fagundes de Borba

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Pedro Fagundes de Borba

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