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Terça-feira, 21 de Abril de 2026

Política

Cultura coach

Juntando isso com um certo misticismo que mistura noções de auto ajuda[...] cria-se esta cultura do coach.

Pedro Fagundes de Borba
Por Pedro Fagundes de Borba
Cultura coach
Palestra motivacional coach; Flickr
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      Juntamente com autoestima para mulheres e fantasias de poder para homens, esperança para pobres é algo que sempre pode ser vendido, sempre tem eco, público e repercussão. Percebendo isso e vendo que ninguém estava vendendo este último, se apoderaram os evangélicos neopentecostais disto. Concentrando suas igrejas nas periferias e outras regiões pobres das cidades, começaram a pregar cultos onde falavam de Deus, Diabo, Jesus e outros temas bíblicos. Mas juntamente vendiam uma noção de prosperidade aos pobres, uma ideia de que existia uma possibilidade de estes ficarem ricos. Como esta é a grande esperança e maior vontade do pobre enquanto ser social, mais do que individual, tal discurso foi ganhando força e conseguindo criar uma cultura ali, juntamente com a questão religiosa. 
     É esta a base geral do crescimento evangélico: muito mais do que pela questão da religião, o que realmente lhe deu força e tamanho foi a promessa de enriquecimento, associada com sofisticadas técnicas de manipulação. A própria questão do dízimo, muito mais do que para arrecadar dinheiro, serve como forma de dominação mental e criação de vínculo do fiel a igreja, a quem fica mensalmente acorrentado, financeira e mentalmente, dando 10% do salário. Não era obrigado a ali estar, mas ficava atraído pelo ambiente criado, pelos laços que ali fazia e pela esperança constantemente alimentada de que enriqueceria, embora fosse mais extorquido que outra coisa.
     Usando a questão religiosa, se solidificaram os evangélicos entre as camadas pobres. Porém, com o tempo, perceberam que, de maneira similar, poderiam fazer o mesmo para com a classe média. Pois sendo essa essencialmente um acidente no capitalismo, uma classe remediada e um pouco melhor estabelecida, ainda que em condições melhores que a maioria dos trabalhadores. Nela se incluem pequenos e médios empresários, boa parte dos profissionais liberais e funcionários melhor remunerados. Por estarem nessa posição intermediária possui um imenso medo da pobreza a quem sente que pode cair a qualquer momento. É em si um tanto arrogante no sentido de, mais do que almejar a riqueza, busca se sentir diferenciada, como se quisesse provar não ser pobre. E assim também costuma se enxergar mais nos ricos do que nos pobres. Almejam também a riqueza, mas a olham de maneira diferente do que o pobre. 
    Vendo essa percepção, alguns pastores e pessoas ligadas começaram a pensar em uma maneira de se criar algo parecido para esta classe, pegando agora tanto pelo medo de empobrecer, quanto no desejo de enriquecer. Também com algo iniciado nos EUA, se trouxe daí muito a figura e a cultura do coach, cuja tradução literal é treinador, normalmente usado para esportes, como basquete e beisebol. E foi readaptado para significar alguém que te prepara, te treina no caso para a riqueza, para ser rico. Isto é feito num caráter essencialmente retórico, onde se repete conceitos amplamente difundidos em outros locais em outras linguagens. A qual que se é pobre, ou não rico, por não possuir mentalidade para isto, ou não ser esforçado. O que desvia a noção do problema, jogando para o indivíduo algo que é coletivo, isto é, um problema social, feito para haver tal desigualdade. 
     Juntando isso com um certo misticismo que mistura noções de auto ajuda, empreendedorismo, coisas místicas e um leve toque de Deus, pois a classe média não compra a religiosidade tão facilmente, cria-se esta cultura do coach. Que por vezes conseguem fornecer pontuais conselhos, mas desviam o foco do problema maior. Vendendo a prosperidade como algo individual, da qual não se considera que é algo que precisa ser coletivo e estendido a todos. Fica algo essencialmente manipulativo, culpando o indivíduo por não atingir algo que, no capitalismo, é estruturalmente restrito a uma pequena minoria, pela própria organização do sistema. É uma mesma cultura, já colocada a muito tempo, que cresce e se expande por haver aumentado a miséria entre pobres e uma perda da qualidade de vida da classe média, a qual se vê cada vez mais arrochada. Nisso aqueles que vendem uma forma de prosperidade prosperam, enganando os outros neste processo, tocando na esperança do pobre e da classe média de que podem ficar ricos. 

Pedro Fagundes de Borba

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Pedro Fagundes de Borba

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