O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Ceilândia com uma missão que parece cada vez mais complicada: transformar a crise do BRB em combustível para a candidatura de Leandro Grass e tentar devolver competitividade ao PT na disputa pelo Governo do Distrito Federal. No meio do caminho, resolveu mirar diretamente na governadora Celina Leão, candidata à reeleição, chamando-a de “cínica e mentirosa” e descartando ajuda federal ao banco.
O problema é que narrativa, por mais sonora que fique no palanque, continua não sendo documento.
Lula afirmou que Celina tenta transferir ao governo federal a responsabilidade pela situação do BRB e atribuiu a crise à relação entre o ex-governador Ibaneis Rocha e Daniel Vorcaro, do Banco Master. Também declarou que não deixaria de pagar programas sociais para colocar dinheiro no banco.
O discurso tem força eleitoral. Mas uma coisa é discurso. Outra, bem diferente, é estabelecer responsabilidade individual.
As investigações sobre as operações entre BRB e Banco Master são graves e envolvem bilhões de reais. Há apurações da Polícia Federal sobre operações e ativos adquiridos pelo banco brasiliense, enquanto responsabilidades administrativas e penais continuam sendo investigadas. Transformar investigação em sentença antes da conclusão dos trabalhos seria apenas trocar o inquérito pelo palanque.
E palanque, como se sabe, aceita quase tudo. Processo judicial costuma ser um pouco mais exigente.
Celina devolve a pancada
Celina respondeu dizendo que esperava que Lula agisse “como presidente da República e não como cabo eleitoral”. A frase acerta exatamente o ponto político mais delicado do episódio: onde termina o candidato Lula e começa o presidente da República?
Essa fronteira fica especialmente importante quando o assunto envolve uma instituição financeira pública controlada pelo Distrito Federal.
O GDF busca uma solução financeira para o BRB e pleiteia garantia da União para uma operação de R$ 6,6 bilhões envolvendo o Fundo Garantidor de Créditos. A questão chegou ao Supremo Tribunal Federal e permanece judicializada.
Portanto, não se trata simplesmente de alguém chegando ao Palácio do Planalto com o chapéu na mão e pedindo alguns bilhões no balcão.
Existe uma controvérsia institucional concreta.
Celina também comparou a postura federal diante do BRB com medidas adotadas para socorrer outras empresas públicas e sustentou que preservar o banco significa proteger empregos, serviços e programas vinculados à instituição.
É justamente aí que a discussão deixa de ser apenas eleitoral.
Lula se mostra inimigo do brasiliense
É notória, para os críticos de Lula, a percepção de falta de interesse republicano do presidente da República na preservação de uma relação institucional menos conflituosa com governos de unidades da Federação comandadas por adversários políticos.
No caso do Distrito Federal, essa crítica ganhou combustível novo.
Para a oposição local, é evidente a retaliação de Lula ao povo de Brasília quando o presidente transforma a crise de uma instituição pública do DF em munição de comício e anuncia, diante do candidato de seu partido ao governo local, que não pretende ajudar o banco.
O velho problema do PT no DF
Há ainda um elefante circulando tranquilamente pelo palco petista: o desempenho eleitoral do partido no Distrito Federal.
O Datafolha divulgado em 11 de setembro colocou Celina Leão com 40% das intenções de voto, José Roberto Arruda com 17% e Leandro Grass com 16%. Em cenário sem Arruda, Celina aparecia com 45% e Grass com 19%.
Os números ajudam a explicar o aumento da temperatura.
O PT tenta há anos reconstruir protagonismo eleitoral na disputa pelo Palácio do Buriti. Nesta campanha, Lula empresta sua popularidade, participa de atos, pede votos e agora entra diretamente no confronto com a principal adversária de Grass.
Ou seja: bateu o desespero no aliado mor de Leandro Grass — esta é a leitura inevitavelmente feita pelos adversários diante da distância registrada nas pesquisas e da entrada direta do presidente no embate local.
A ironia é saborosa.
Para convencer Brasília a votar no candidato petista, Lula escolheu confrontar justamente a governadora de Brasília durante uma crise envolvendo justamente o banco de Brasília.
É uma estratégia eleitoral, digamos, ousada.
O BRB precisa de investigação, não de torcida organizada
Nada disso absolve quem quer que seja pelas operações envolvendo BRB e Master.
Se houve gestão fraudulenta, irresponsabilidade administrativa, participação política, omissão ou crime, que os responsáveis sejam identificados, processados e punidos. Sem sobrenome protegido, sem partido de estimação e sem convenientemente escolher culpados conforme a cor da bandeira eleitoral.
Chamar uma governadora de “cínica e mentirosa” pode arrancar aplausos de militantes numa praça. Mas, vindo do presidente da República, a frase carrega um peso institucional que ultrapassa a disputa entre Celina Leão e Leandro Grass.
O presidente não deixa de ser presidente quando sobe no palanque.
Federação não pode funcionar conforme a urna
O Brasil é uma Federação, não uma associação de governos amigos do Palácio do Planalto.
Governadores governam cidadãos brasileiros, independentemente do partido ao qual pertencem. Quando Brasília pede uma decisão da União sobre uma operação destinada ao seu banco público, a resposta deve ser técnica, transparente e institucional.
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