Em um raro momento de lucidez política — desses que parecem escapar sem querer — Ricardo Cappelli (PSB) verbalizou o que muita gente já percebeu há tempos: a esquerda no Distrito Federal enfrenta um cenário árido, quase intransponível. A fala, que mais parece um diagnóstico involuntário, revela não apenas a fragilidade eleitoral do campo progressista, mas também a dificuldade de reconexão com um eleitor brasiliense cada vez mais atento, exigente e, principalmente, desconfiado.
De vez em quando, a política brasileira nos presenteia com cenas curiosas. E essa é uma delas. Ricardo Cappelli, figura desconhecida no cenário político, mas que se acha, resolveu dizer em voz alta aquilo que, nos bastidores, já virou consenso até entre aliados: a esquerda no DF já era — pelo menos nos moldes em que ela insiste em se apresentar.
E aqui não estamos falando de um tropeço retórico. Estamos falando de um reconhecimento, ainda que tímido, de uma realidade desconfortável. Porque, convenhamos, quando um nome ligado ao próprio campo admite que não há caminho claro para vitória, é sinal de que o problema não é de comunicação. É estrutural.
O eleitor do Distrito Federal não é qualquer eleitor. É politizado, acompanha o noticiário, entende minimamente de gestão pública e, sobretudo, tem memória. E memória, na política, costuma ser um ingrediente indigesto para quem insiste nos mesmos erros esperando resultados diferentes.
PT, Psol, PSB e companhia parecem não ter percebido que o desgaste não é recente — ele vem sendo acumulado como uma conta que ninguém quis pagar. O resultado? Um afastamento quase emocional do eleitor brasiliense, que olha para esse grupo político com uma mistura de ceticismo e impaciência.
E aí entra a ironia da história: enquanto Cappelli sonha em conquistar votos do centro e da direita — missão digna de roteiro de ficção —, a base tradicional da esquerda já não demonstra o mesmo entusiasmo de outros tempos. É como tentar vender guarda-chuva no deserto… e ainda reclamar que o cliente não entende a proposta.
A verdade é dura, mas necessária: a esquerda brasiliense no DF não tem nem o apreço, nem credibilidade com o eleitor local. E isso não nasceu do nada. Foi construído, tijolo por tijolo, em discursos desalinhados, gestões questionáveis e uma insistência quase teimosa em não fazer autocrítica.
Agora, o que vemos é um esforço meio desesperado, quase poético na sua teimosia: a esquerda no DF tenta emergir da lama que se colocaram. Mas sem mudança real de postura, sem renovação de ideias e, principalmente, sem reconexão genuína com a realidade do eleitor, esse movimento soa mais como um ensaio do que como uma estratégia.
E aqui vai um ponto importante: não se trata de ser de direita, esquerda ou centro. Trata-se de credibilidade. E credibilidade não se constrói com discurso reciclado, nem com promessas que já não convencem nem os próprios aliados.
No fim das contas, a fala de Cappelli talvez tenha sido o momento mais honesto da esquerda no DF nos últimos tempos. Uma espécie de espelho — daqueles que não perdoam — mostrando que, no jogo político da capital do país, não basta existir. É preciso convencer. E isso, claramente, ainda está longe de acontecer.
Porque, no Distrito Federal, o eleitor não compra narrativa pronta. Ele testa, compara e decide. E, pelo visto, já decidiu faz tempo.