Jornal da 2CNews

Sexta-feira, 10 de Abril de 2026

Justiça

Quando o poder se acha divino: a estranha cruzada do STF contra um jornalista

Busca e apreensão contra repórter maranhense levanta debate sobre liberdade de imprensa, abuso de poder e a crescente sensação de que alguns ministros do Supremo já se veem como semideuses

Claudio Campos
Por Claudio Campos
Quando o poder se acha divino: a estranha cruzada do STF contra um jornalista
André Borges/EFE
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A operação de busca e apreensão contra o jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, reacendeu um debate incômodo no país: até onde vai o poder do Supremo Tribunal Federal e onde começa a liberdade de imprensa? Para críticos da decisão, o episódio é mais um capítulo daquilo que muitos já classificam como STF censura — uma realidade que, na prática, transforma o repórter em jornalista amordaçado diante de autoridades cada vez mais sensíveis a críticas.

No Brasil, o roteiro parece cada vez mais previsível. Um jornalista publica uma reportagem incômoda. O alvo se sente ofendido. E, de repente, a resposta não vem em forma de explicação pública ou contestação jurídica comum — vem com mandado de busca, recolhimento de celulares e apreensão de computador.

Foi exatamente o que aconteceu com o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida. Após publicar reportagens sobre o suposto uso irregular de um veículo oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão por familiares do ministro Flávio Dino, a reação veio rápida — e pesada.

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Celulares e notebook foram recolhidos

A pergunta que ecoa entre jornalistas, juristas e cidadãos comuns é simples: desde quando reportagem virou motivo para operação policial?

A defesa do jornalista foi direta ao ponto. Classificou a decisão como “medida intimidatória”, “repugnante” e uma verdadeira tentativa de identificar fontes — algo que, em qualquer democracia madura, deveria ser protegido como um dos pilares da liberdade de imprensa.

Afinal, jornalismo investigativo não nasce em laboratório. Nasce de fontes, documentos, conversas, bastidores e denúncias. Quando o poder decide investigar quem contou a história, a mensagem enviada para toda a imprensa é clara: cuidado com o que você publica.

E é aqui que a ironia da situação se revela

Ministros que deveriam ser guardiões da Constituição — aquela mesma que protege a liberdade de expressão — acabam protagonizando episódios que fazem parecer que alguns deles já ultrapassaram a fronteira da autoridade institucional.

Para muitos críticos, certas decisões do Supremo têm dado a impressão de que alguns de seus integrantes passaram a habitar um Olimpo jurídico particular, onde críticas são vistas como afronta divina.

Sim, há quem diga sem rodeios: Dino e Moraes parecem se sentir semideuses da República.

Não precisam explicar muito. Não precisam debater. Basta a caneta.

E quando a caneta do Supremo pesa, pesa com força.

O problema é que democracia não combina com divindades políticas. Muito menos com jornalistas silenciados.

Porque quando o poder começa a agir como se fosse intocável, o jornalismo passa a ocupar o papel de herege. E o país entra em um terreno perigoso: o da intimidação institucional.

Hoje foi um repórter maranhense.

Amanhã pode ser qualquer outro.

E quando jornalistas começam a trabalhar com medo, o resultado é sempre o mesmo: uma sociedade menos informada, menos livre e mais vulnerável.

No final das contas, o que está em jogo não é apenas a situação de um profissional da imprensa.

É algo bem maior

É saber se o Brasil continuará sendo um país onde jornalistas investigam o poder — ou um país onde o poder investiga jornalistas.

Claudio Campos

Publicado por:

Claudio Campos

Claudio Campos é jornalista com registro MTB/Fenaj 2993-DF desde 12 de fevereiro de 2003. Apartidarismo, imparcialidade crítica e independência jornalística são preceitos básicos que norteiam sua conduta profissional e pessoal

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